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Ep. 05 - Coisas além da Fotografia


 

Para fazer boas fotos é preciso ter referências que vão além do consumo de imagens.

Nesse episódio o tema são as coisas que vão além da fotografia.



Como fazer boas fotos




Roteiro

Temporada: 003

Episódio: 005

Gravação: Henry Milleo

Locução: Henry Milleo


<FADE IN

ENTRA MÚSICA

MÚSICA DESCE>


Olá pessoal, sejam bem-vindos.

Esse aqui é o Arquivo Raw, um podcast para falar sobre fotografia.

Eu sou Henry Milleo, sou fotógrafo e editor de fotografia e também host dessa coisa toda aqui.


E hoje eu quero falar sobre a necessidade de ter referências para sua fotografia. Referências de coisas que vão além da fotografia, além de consumir somente fotos e conhecimento visual.

E eu queria fazer um episódio que não ficasse parecendo com algo meio Mestre Yoda, mas falhei miseravelmente, então vai assim mesmo.


Mas, antes de pular para esse assunto, os recados.


Primeiro eu quero pedir para vocês deixarem a sua indicação de tema para os próximos episódios, para seguirem o Arquivo Raw no Instagram: arroba arquivo underline raw, para compartilhar esse episódio nas suas redes - mande para aquele amigo que você acha que vai se interessar.

E também, se puderem colaborem ouvindo o episódio lá na Orelo: orelo.cc/arquivoraw. A Orelo paga aos produtores de conteúdo por episódio ouvido na plataforma deles. Não é muito, é coisa de centavos, mas no final já ajuda a manter o podcast no ar.

E, se você quiser ajudar um pouco mais, você pode enviar um pix com qualquer valor para a chave que está na descrição desse episódio.


E é isso. Recado dado, vamos ao episódio.


<ENCERRA MÚSICA E ENTRA VINHETA

ENCERRA VINHETA E MÚSICA VOLTA>


Eu sempre falo aqui da importância de você ter referências para fazer uma boa foto. Já falei em pelo menos uns 3 episódios, o que é muito porque esse aqui é só o quinto. Mas que tipo de referência?

Bem, existem basicamente dois tipos de referência. A primeira é bem característica da fotografia e da formação dos fotógrafos e provavelmente você exercita ela a todo momento.


É aquela que é adquirida consumindo o material de outros fotógrafos, percebendo a fotografia que é feita em filmes e séries, buscando esse tipo de material nesse tipo de fonte visual.


Você consegue, inclusive, fazer boas fotos só observando o trabalho de outras pessoas que atuam no mesmo tipo de nicho que você tem interesse. Por exemplo: você consegue montar ali uma cartela de poses básicas para books e fotos de modelos ou de família. Da mesma forma, se você trabalha com eventos você consegue captar uma série de referências de relação figura fundo em um casamento, por exemplo. Aquela foto da noiva, com o vitral iluminado de fundo, com uma luz de contra bonita, com uma decoração.


E é claro que você precisa de experiência para ter mais naturalidade nas composições, mas existem essas fotos mais tradicionais, que são figurinhas carimbadas nas coberturas e ensaios, mas que são coisas que você consegue perceber e integrar ao seu trabalho só consumindo material de fotógrafos mais experientes.


O segundo tipo de referência é um pouco mais profunda e, na verdade, é o tipo que me interessa.


Porque assim, como eu já disse, fazer uma boa foto não é difícil. Você consegue fazer uma foto bacana, interessante, bonita, com uma boa composição se você prestar atenção em algumas coisas básicas. Então se você vai fazer um ensaio de modelo, por exemplo, e você tiver desenvoltura para dirigir a modelo e tiver ideia do que você quer e de como quer fazer as poses, de como você quer compor aquilo, você consegue fazer boas fotos.


Mas a referência que me interessa é a referência que vai me ajudar a fazer fotos que também têm uma referência interna e que digam algo mais profundo. E nesse caso eu não estou falando de fotografia comercial, onde a criatividade e a beleza plástica da fotografia ficam um pouco mais presas ao que o cliente quer, ou ao que está na moda nos trabalhos fotográficos, mas de trabalhos onde a visão do fotógrafo sobre o que ele está registrando tem um peso maior. É uma referência um pouco mais aprimorada, digamos assim.


Quando eu estava começando na fotografia, muito tempo atrás, um fotógrafo das antigas me disse assim: você precisa ter referência porque as suas fotos só vão ser tão boas quanto é a sua bagagem.


Para ilustrar melhor isso, deixe eu contar a história de um projeto que eu estou fazendo e que eu descobri como dar continuidade nele, como abordar a história que eu quero, através da bagagem que eu tenho, das coisas que eu absorvi e que eu carrego comigo.


Eu passei os dois anos da pandemia isolado. Saía de casa raramente para ir no mercado, ou em algum horário que não tivesse ninguém na rua, só para dar uma volta na quadra.


Nesse período eu não vi meus pais, eu só falava com eles por telefone ou vídeo chamada. E quando eu tomei a segunda dose da vacina e o cenário melhorou um pouco, eu fui visitar eles.


Eles moram numa cidade aqui do interior do Paraná e eu tinha muita coisa guardada dentro de mim e não era só a saudade dos meus pais e da família, mas também aquela ânsia nômade do fotógrafo, sabe? De sair andando, pegar a câmera e sair.


E quando eu fui para a cidade dos meus pais eu peguei a câmera e saí, porque eu queria ver os lugares que me eram conhecidos, lugares com os quais eu tinha alguma ligação sentimental, alguma ligação afetiva, que faziam parte da minha infância.


E aqui vem a minha primeira referência, que é uma entrevista do Rubem Alves onde ele disse algo como: “se você gosta de um lugar, não volte para lá, porque aquilo ficou no tempo. As coisas não mudam de lugar, mas o tempo muda tudo e você não vai mais encontrar aquele lugar”.


E foi o que aconteceu comigo. Eu acabei encontrando os lugares que eu queria mas eles não eram mais os mesmos.


A fachada de uma sorveteria que já não existe mais, uma lanchonete, uma praça, o rio onde a gente nadava. Tudo era diferente e aquilo não casava com a memória que eu tinha daqueles lugares.


E foi aí que eu pensei em fazer um trabalho fotográfico retratando esses lugares - que é o projeto que eu estou fazendo agora. Só que eu não sabia como lidar com isso, como mostrar essa distância. E quando eu digo mostrar, não é mostrar para quem vai ver, porque quem vai ver isso não tem as mesmas memórias que eu, mas é como eu vou mostrar isso para mim mesmo.


Então eu deixei isso cozinhando por um tempo e um certo dia eu estava voltando de um outro projeto do qual eu estou participando, e era noite, na estrada e eu estava olhando pro céu, aproveitando para ver a Via Láctea - porque longe da poluição luminosa das cidades você consegue ver melhor o céu estrelado - e olhando aquilo eu me lembrei do Pale Blue Dot.


Lá em 1990 quando a sonda Voyager I estava saindo do Sistema Solar ela estava passando por Plutão, a 6 bilhões de quilômetros da Terra, a NASA virou a câmera dela para trás e fez uma série de 60 fotos do nosso sistema solar que foi chamada de retratos de família.


Depois essas 60 fotos foram juntadas numa única imagem que foi chamada de Pale Blue Dot – pálido ponto azul - que era a primeira foto do nosso sistema solar – eu postei a foto no Instagram do Arquivo Raw, então vocês podem conferir lá depois.


E no momento da foto tinha um raio de luz do sol no canto direito da imagem e a terra parecia iluminada, um pálido ponto azul, um grão de poeira flutuando em uma nesga de sol. Um ponto menor que um pixel.


Depois o astrônomo Carl Sagan escreveu um livro chamado a pale blue dot, onde ele fez um verso baseado nessa foto que começa assim:


Olhe novamente para esse ponto.

Isso é aqui.

Essa é nossa casa, Somos nós.

Nela vive todo mundo que você ama, todo mundo que você conhece, todo mundo de que você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu.

O agregado de nossa alegria e sofrimento.


E isso é uma distância física, de bilhões de quilômetros, mas eu pensei que eu podia fazer essa ligação. A mesma ligação de distância, só que com o tempo e tratar a minha memória da infância, que já está distante, já é um pálido ponto azul ao longe, com a distância da sonda com a terra. Essas memórias que contém muitas coisas. Experiências, alegrias, tristezas, tudo isso.

Então eu estou revisitando esses lugares como se eles estivessem realmente distantes, como se fosse uma visão de muito longe daqui.


E por causa dessas referências, de ter visto essa imagem há muito tempo, de ter lido esse livro, que não são referências fotográficas diretas, eu consegui encontrar a solução para o problema de como mostrar esses lugares, como mostrar a minha memória na fotografia. Daí a importância das referências que vão além só do consumo de foto.


É muito importante você olhar o material de outros fotógrafos, principalmente dos grandes fotógrafos, mas é muito importante você saber que quando você vê a foto de um grande fotógrafo, uma foto que é bacana, que é histórica, que é famosa, que as pessoas reconhecem até como um objeto artístico, que aquele cara que fez aquela foto tinha também essas referências que iam além da fotografia. Ele lia, circulava entre artistas, entre poetas, conversava com pessoas comuns. Ele tinha uma bagagem de vida que ele conseguia acessar e incluir em seus trabalhos fotográficos. Não era só o mimetismo de trabalho de outros fotógrafos.


É claro que aqui eu falei de um projeto fotográfico, que é uma coisa pessoal, de um projeto pessoal. Mas você pode usar isso de outras formas. Por exemplo: eu fui fazer uma foto para um jornal, e eu estou usando exemplos meus, não é para me gabar, não. É porque são histórias que eu consigo contar, com certeza, como elas aconteceram, quais foram as referências e como aquilo foi composto, ok?


Então uma vez eu fui fazer uma foto que era de um senhor que ele tinha uma loja que vendia roupas para cavalheiros, em Curitiba. Tinha terno, chapéu, sapato… tudo o que um cavalheiro precisava para se vestir bem.


E eu fui fazer um retrato dele no provador da loja, que não é um provador desses como você vê nessas lojas de departamento de hoje em dia. Era uma sala ampla, com a parede inteira de uma madeira escura, um espelho grande, cabides nas paredes, sofá de veludo… um negócio bacana, desses que você só vê em filmes antigos.


E ele estava de frente para o espelho - eu fiquei nas costas, mais para o lado - para fazer uma foto do reflexo no espelho e mostrar aquele ambiente, porque o título dessa foto foi o último Cavalheiro do Curitiba e o cenário era perfeito para isso.


Na foto ele está ajeitando o chapéu e no lado esquerdo da imagem, na parede ao lado do espelho, tem uma foto do presidente Kennedy.


E eu decidi por manter o retrato do Kennedy no quadro da foto, porque ele foi o primeiro presidente americano a não usar chapéu.


Porque ele era muito vaidoso com seu cabelo e a partir daí os homens americanos passaram a também não usar chapéu, porque ele era muito popular, as pessoas gostavam muito dele e tinham essa referência de estilo. E isso depois se espalhou pelo mundo e acabou com a era dos homens usando chapéu.


Então essa foto ficou parecendo uma foto antiga, tirada lá na década de 60, mas tem esse embate escondido entre o moderno e o clássico.


Entre a modernidade que o Kennedy ajudou a instituir no cenário da época e que depois cresceu através da dança, da música, dos movimentos políticos, enfim… Tudo isso. E a fineses do senhor usando um traje completo, com terno e chapéu.


E esse é o tipo de referência a que eu me refiro, as coisas além da fotografia.


Então leiam, vão ao teatro, vejam uma orquestra, procurem saber a história das coisas, observem o seu redor, porque com o tempo vocês começam a usar isso como lastro para sua fotografia e para sua própria forma de contar as histórias.


Porque como minha avó já dizia: quem não lê não aprende a escrever. E, usando aqui um jargão já bem manjado, fotografar é escrever com a luz.


<SOBE MÚSICA

DESCE MÚSICA>


E é isso pessoal.

Comente dizendo o que achou desse episódio e deixe a sua indicação de tema para os próximos.

Eu fico por aqui. Fiquem bem. Ciao!


<SOBE MÚSICA

FADE OUT

ENCERRA>



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