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Ep. 15 - Fotografia mobile


 

A tecnologia avança, equipamentos são incorporados ao nosso cotidiano, mas a pergunta continua: fotografia com celular é fotografia, ou é outra coisa?



Fotografia com celular
Fotografia mobile

Roteiro

Temporada: 004

Episódio: 015

Gravação: Henry Milleo

Locução: Henry Milleo



ÁUDIO DA REPORTAGEM DO JORNAL NACIONAL


Esse áudio que você ouviu é de 30 de dezembro de 1990, de uma reportagem do Jornal Nacional sobre o lançamento da telefonia móvel no Brasil.


Naquele primeiro momento foram habilitadas 700 linhas em todo o país, o que é um número muito pequeno se você comparar com o número de aparelhos celulares hoje.


Uma pesquisa da FGV aponta que são 240 milhões de telefones celulares no país. Um número maior que o de habitantes, segundo o Senso do IBGE, que mostra um total estimado de 211 milhões de brasileiros.


Aliás, só por curiosidade, vou fazer um parêntesis aqui para essa fala do então ministro da infraestrutura, Ozires Silva, que recebeu a primeira ligação, do ministro de comunicações da época, Joel Marciano Rauber.


ENTRA FALA DO MINISTRO: NÃO TEREMOS SOSSEGO NEM NO AUTOMÓVEL.


E o ministro estava certo. Hoje não há um lugar onde você esteja que a sua mãe não possa enviar uma mensagem instantânea e em tempo real, perguntando se você levou o casaco.


O primeiro aparelho celular no Brasil foi o Motorola PT-550, que logo de cara foi apelidado de tijolão e que em dias atuais - fazendo o câmbio da moeda - chegaria perto dos 15 mil reais.


E aqui fazendo o segundo parêntesis do episódio, eu lembro quando foi veiculada uma das primeiras propagandas na TV do celular.


Ela mostrava um senhor, de cabelos grisalhos, com pés descalços, a calça branca dobrada perto dos joelhos e uma blusa azul marinho com as mangas também dobradas, caminhando em uma praia enquanto falava em um telefone enorme e a voz de um narrador dizia: O Dr. Carlos fazendo plantão.


Já o primeiro celular com câmera fotográfica embutida no aparelho a desembarcar por aqui foi o modelo SCP-5300, da Sanyo, no ano de 2002, e tinha a incrível capacidade de fotografar em 0,3 megapixels.


Mas tudo isso é só curiosidade, porque aqui nesse podcast o que interessa é a fotografia, então vamos pular para esse tema.


<SOBE MÚSICA

DESCE MÚSICA>


Olá pessoal, sejam bem-vindos a mais um episódio do Arquivo Raw, um podcast para falar de fotografia.


Eu sou Henry Milleo, sou fotógrafo, editor de fotografia e host disso tudo aqui.


E como vocês já perceberam o episódio já começou, mas eu preciso dar aqui os meus recados. Então, vamos lá.


E eu queria começar agradecendo ao pessoal que respondeu a pesquisa sobre o podcast. Vocês são ótimos.


E se você ainda não respondeu, ainda dá tempo. O link está lá na bio do Instagram.


É uma pesquisa rápida, leva só um minutinho para responder, mas já ajuda bastante para eu saber qual o caminho que o podcast vai seguir. Então se você puder dispensar esse tempo para contribuir, eu agradeço.


E aproveita e segue o Instagram do Arquivo Raw, que é @arquivorawpodcast. É por lá que você pode enviar mensagens e indicações de temas para os episódios e também ficar sabendo do que vai rolar pela frente.


E se você gosta disso daqui e curte o conteúdo, você pode ajudar a manter o Arquivo Raw no ar. É simples e não toma muito esforço.


Uma das formas de fazer isso é ouvindo os episódios na Orelo. A Orelo remunera os produtores de conteúdo por episódio ouvido na plataforma deles. Não é muito, é coisa de centavos, mas já ajuda.


Outra forma de contribuir é compartilhando os episódios em suas redes sociais e indicando para aquele seu amigo ou conhecido que você sabe que iria se interessar por isso daqui.


Quanto mais o número de ouvintes cresce, mais o podcast tem força para buscar um patrocínio e assim é possível investir em episódios cada vez melhores.


E você também pode classificar o Arquivo Raw no seu tocador preferido. Cinco estrelas seria ótimo, mas você pode marcar quantas quiser.


E por último você pode contribuir fazendo um pix com qualquer valor para a chave que está na descrição desse episódio.


E é isso. Recados dados, vamos para a vinheta e para o episódio.


<ENCERRA MÚSICA E ENTRA VINHETA

ENCERRA VINHETA E MÚSICA VOLTA>


Quase 21 anos depois dos fantásticos 0,3 megapixels do Sanyo SCP-5300 e 32 anos depois da previsão do fim do nosso sossego feita pelo ministro Ozires Silva, os aparelhos celulares evoluíram e ocupam um espaço central em nossas vidas. Inclusive é bem possível que você esteja escutando esse podcast através de um celular.


Hoje você carrega - e usa - uma pequena, portátil e potente câmera fotográfica em seu bolso. E, provavelmente, não se questiona muito sobre qualidade, capacidade e versatilidade desse aparelho. Ou ao menos não se questiona o quanto deveria.


Mas não foi sempre assim.


Quando os celulares começaram a ter câmeras mais potentes e os fotógrafos começaram a testar as possibilidades que a mobilidade permitia, Sebastião Salgado, um dos grandes fotógrafos do nosso tempo, fez uma afirmação durante uma entrevista à revista Veja, dizendo que as fotos instantâneas, tiradas com smarphone e publicadas a seguir não são fotografia. São uma forma de comunicação através da imagem, mas sem valor estético. Que as pessoas não se importam mais que os arquivos se percam.


Em contrapartida, lá em 2010 o fotógrafo Joel Sternfeld usou um iPhone para fotografar os luxuosos shopping centers de Dubai e publicou pela Steidl um livro de bolso, do tamanho de um telefone móvel, chamado iDubai.


Aliás, fazendo mais um parêntesis aqui, tem um documentário chamado How to make a book with Steidl (como fazer um livro com a Steidl), onde aparece o processo de produção desse livro do Sternfeld. E se você tiver curiosidade de ver, eu sei que ele está disponível para alugar no Vímeo.


Mas seguindo...


É claro que o Salgado e o Sternfeld têm a prerrogativa de serem grandes fotógrafos, de terem influenciado - na esteira do que fizeram - um grande número de profissionais que vieram depois deles, mas eu tenho que separar as coisas.


Primeiro que eu entendo e concordo com o Sebastião quando ele fala da efemeridade da fotografia mobile. Antigamente você guardava as fotografias, selecionava o que valia ou não ser fotografado, organizava em álbuns e aquilo era uma documentação da sua passagem pela vida. Sua, de sua família, seus amigos e acontecimentos importantes.


Hoje é tudo mais rápido e as pessoas dão menos importância ao que estão fotografando e publicando em suas redes sociais.


E aqui estou falando da população em geral, dos que não são fotógrafos ou entusiastas da fotografia, apesar de que tem muito fotógrafo entrando nesse turbilhão dos algoritmos das redes de compartilhamento e se deixando levar pelo fútil e supérfluo da imagem.


Mas ao mesmo tempo eu também concordo com fotógrafos como o Joel Sternfeld que já nos primórdios da tecnologia mobile empunhou seu iphone 4 pelos corredores dos ultra ricos shoppings da árida Dubai para fazer um projeto de crítica ao capitalismo luxuoso.


O mundo muda, a linguagem muda, as ferramentas mudam, as tecnologias chegam, mais pessoas têm acesso a coisas que antigamente não eram tão simples e tudo avança.


E é bem óbvio que o incremento de tecnologia na fotografia acaba por ocupar um espaço dentro da nossa rotina de trabalho e até incrementar ou substituir alguns processos.


A questão é: há um limite entre o que pode e não pode ser feito?


E eu sei que eu já disse que todos andamos por aí com uma câmera no bolso e que esse assunto pode parecer um pouco antigo de ser abordado, mas eu creio que é justamente por isso, por todos termos acesso e vivermos em uma época de extremo consumo de imagens, que esse tema é necessário para os fotógrafos. Afinal, você investe uma boa grana em câmeras, equipamentos e periféricos enquanto é possível fazer muita coisa com um aparelho que custa uma fração do que você gastaria em uma Nikon ou Canon top de linha.


Mas para responder a essa pergunta - se a fotografia com celular é válida - é preciso primeiro definir o que é fotografia.


E pode parecer estranho ter que definir o que é fotografia em um podcast que vem falando sobre fotografia há muito tempo, mas vai por mim, isso é necessário porque eu estou falando de fotografia de uma forma profissional e não feita por amadores, ok?


Estou falando de nosso nicho de fotógrafos profissionais ou de entusiastas que têm a fotografia como um hobby sério, ou mesmo de quem está começando e quer aprender isso de um jeito bacana.


E eu digo definir o que é fotografia, porque você pode considerar todo tipo de imagem como fotografia, ou pode considerar uma fotografia como sendo apenas o que foi feito por um profissional com conhecimento na produção de imagens.


Ou pode ser até tão chato quanto eu e considerar válido como fotografia aquilo que vale a pena observar.


Apenas o que é original e que tem como resultado uma reflexão, seja ela social, econômica, noticiosa, artística, cultural, documental, etc. Etc. Etc.


E sim, eu sou bem chato quando se trata de fotografia.


Se pegarmos por esse viés, da fotografia feita de forma profissional, eu diria que sim. Que fotografia feita com celular é sim fotografia. Mas em um nível um pouco diferente.


É como dizer que um Celta e um Aston Martin são carros. Os dois são veículos automotivos, os dois te levam para onde você precisa ir, mas tem uma diferença enorme entre o popular da GM e o britânico com acabamento a mão dirigido pelo 007, certo?


É claro que tem diferença e tenho quase certeza que você vai concordar comigo nisso.


Primeiro porque você tem as limitações do equipamento - agora eu estou falando da fotografia, não do automobilismo.


Uma câmera tradicional, full frame, tem um sensor de 36 x 24 mm (comumente chamado de 35 mm), enquanto um celular é cerca de 15 vezes menor. E na fotografia tamanho é documento.

Se você comparar uma 35 mm com uma médio formato, essa segunda tem ainda mais qualidade do arquivo final, porque permite mais espaço para captar mais luz, mais detalhes e mais contraste.


O mesmo acontece entre o celular e a câmera. Por mais que o fabricante diga que o smartphone tem lá 200 megapixels, vão ser 200 megapixels em um sensor de uma polegada e meia.


É por isso que quando você aumenta bastante a imagem, você vai ver que a foto é cheia de imperfeições ou, como a gente dizia no departamento de fotografia do jornal: empastelada.


Eu não sei de onde veio esse termo empastelado, mas é um termo que eu gosto e que eu uso até hoje. As fotos estão empasteladas.

Então quando você for comprar um celular pensando na fotografia, essa é uma questão para se levar em conta. Procure saber a qualidade e tamanho do sensor.


Outra coisa é a forma de configurar o equipamento.


Enquanto em uma câmera os comandos estão todos à mão, podendo serem acessados rapidamente, em um smartphone você precisa clicar e acessar configurações de uma forma bem mais lenta, por mais que o seu aparelho tenha a possibilidade de ajuste de ISO, velocidade e abertura do diafragma, todos esses recursos que são chamados pró nos aparelhos celulares, ele ainda é mais lento..


E isso limita o que pode ser feito quando a resposta que você precisa dar para o que acontece tem que ser rápida.

Mas aí você pode dizer que isso pouco importa, porque o destino final da imagem é uma rede social ou a publicação online e para isso o arquivo do celular é suficiente.


E você está certo. Se for para fazer foto efêmera ou comercial só para esses suportes, tudo certo.


Mas se você precisar dele para algo mais sério, aí precisa levar em conta essas limitações e a forma de trabalhar com ele.


O que não quer dizer que ele seja ruim para isso.

Eu mesmo já fiz trabalhos com o celular. Trabalhos que eu fui contratado e pago para fazer.


Mas eram trabalhos em locais que ou eu não poderia levar a câmera, ou eram lugares onde o equipamento fotográfico chamaria muita atenção e custaria a espontaneidade do momento, ou até pautas que precisariam ser feitas naquele momento e que eu não estava com a câmera. E funcionou.


Mas funcionou porque eu tinha o conhecimento de como compor uma fotografia e conhecia o equipamento que eu estava usando, inclusive sabendo dessas limitações dele.

Eu já fiz - e ainda faço - até trabalhos meus, de projetos pessoais que eu uso somente o celular. Trabalhos que acabam virando fotozines, inclusive.


Mas foram projetos pensados para serem feitos com esse equipamento. Como eu já disse: projetos que levaram em consideração as limitações e dificuldades que eu iria ter, mas que foram possíveis de adequar porque era exatamente essa a linguagem que eu queria.

Então, se a questão é: fotografia de celular é válida? Eu creio que a resposta vai mais pelo viés de quem está fotografando com o celular.

No início do episódio eu disse que eu sou bem chato quando se trata de fotografia, lembra?


Então. Eu criei uma classificação, que é só minha, não é acadêmica nem nada - só para deixar claro. E que é assim: o que eu acho bom, que acredito que tem valor eu chamo de fotografia, independente se é feita com câmera de filme, com equipamento digital ou com celular.


E o que eu acho que é comum (mesmo que seja bonita e que tenha sua validade comercial) eu chamo de foto.

Pegando essa classificação, 90% do que está no Instagram, por exemplo - que eu acho que é a principal rede de compartilhamento de imagem hoje em dia - do que está lá e é feito com celular, que fique bem entendido - é foto. Coisa efêmera e superficial.


O que se salva lá, que é feito com celular, é o trabalho de quem realmente pensa a fotografia.

Então existem poucas pessoas que realmente estudam a fotografia e que se interessam por pensar a fotografia.


Pensar a maneira de fazer a fotografia, mas não apenas em composição e enquadramento, mas usando isso para mostrar algo que vai além apenas da estética da imagem, independente do equipamento.

São poucos que criam algo e muitos - a grande maioria, na verdade - que simplesmente copiam tudo na cara dura.


Para esses a câmera pouco importa no resultado final, porque o resultado final é dispensável.


Então a resposta para a questão: fotografia com celular é fotografia é: sim. Desde que tenha um fotógrafo operando o aparelho. Como a maioria das fotografias, na verdade.

Para resumir e terminar o episódio: fotografia independe da qualidade do equipamento.


Claro que equipamento é importante, mas é mais importante você saber o que fazer com ele.


<SOBE MÚSICA

DESCE MÚSICA>


E é isso, pessoal. Vamos ficando por aqui. Me sigam no Instagram que é @henrymilleo.


Esse episódio teve áudio do Jornal Nacional no Youtube.


Até a próxima. Fiquem Bem. Ciao!


<SOBE MÚSICA

FADE OUT

ENCERRA>



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