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Ep. 19 - O que faz uma boa fotografia?


 

O que faz uma boa fotografia? Ou: o que faz uma fotografia ser boa?

Para conversar sobre esse tema eu bato um papo com o fotógrafo, professor e youtuber, Armando Vernaglia Júnior.



O que faz uma foto ser boa?

Roteiro

Temporada: 004

Episódio: 019

Gravação: Henry Milleo

Locução: Henry Milleo

Convidado: Armando Vernaglia Jr.



<SOBE MÚSICA

DESCE MÚSICA>


Olá pessoal, estamos começando mais um episódio do Arquivo Raw, um podcast para falar de fotografia.


Eu sou o Henry Milleo, sou fotógrafo, editor de fotografia e host disso tudo aqui


E no episódio de hoje o tema é o que faz uma boa fotografia ou o que faz uma foto ser boa.


Quando você fotografa ou consome fotografia e você fez ou viu algo que achou interessante, que te agradou e que você considera como uma boa fotografia, você pensa no que faz aquela foto ser boa?


Não é uma questão fácil de ser respondida, aliás, nem é uma questão para ser respondida, mas uma questão para se pensar sobre.


E justamente pra pensar sobre isso eu trouxe aqui para conversar comigo nesse episódio o Armando Vernaglia Jr., e ele vai se apresentar aqui assim que o episódio efetivamente começar, mas já adianto que se alguma vez você fez uma busca por assuntos relacionados a fotografia – o que eu acredito que você já fez – muito provavelmente você já topou com algum conteúdo produzido por ele.


Aliás, já aviso de antemão que os links pro Instagram, para o site e para o canal do YouTube do Vernaglia estão na descrição desse episódio.


Então vamos lá, vamos pular para o tema, mas antes, aqueles recados


<SOBE MÚSICA

DESCE MÚSICA>


Eu queria começar agradecendo ao pessoal que respondeu a pesquisa sobre o podcast. Vocês são ótimos!


E se você ainda não respondeu, ainda dá tempo. O link está lá na bio do Instagram e também aqui na descrição do episódio.


É uma pesquisa rápida, leva só um minutinho para responder, mas já ajuda bastante para eu saber qual o caminho que o podcast vai seguir.


Então, se você puder dispensar um tempo para contribuir, eu agradeço.


E aproveita e segue o Instagram do arquivo. O que é @arquivorawpodcast. É por lá que você pode enviar mensagens e indicações de temas para os episódios e também ficar sabendo do que vai rolar pela frente.


E também queria avisar a vocês que no site do Arquivo Raw você encontra não só as transcrições dos episódios a partir da terceira da quarta temporada, mas também textos sobre fotografia.


Para cada episódio que vai ao ar, eu também publico um texto, geralmente nas quartas-feiras, tratando de assuntos correlatos ao que foi discutido por aqui.


Pode ser um aprofundamento no tema, uma dica ou uma análise.


Então faça uma visita lá. O link está na descrição desse episódio e na bio do Instagram.


E se você gosta disso daqui, curte o conteúdo, você pode ajudar a manter o arquivo no ar. É simples e não toma muito esforço.


Uma das formas de fazer isso é ouvindo os episódios na Orelo. A Orelo remunera os produtores de conteúdo por episódio ouvido na plataforma deles. Não é muita coisa, é coisa de centavos, mas já ajuda.


É só você acessar orelo.cc/arquivoraw, ou seguir o link que também está lá na bio do Instagram.


Outra forma de contribuir é compartilhando os episódios nas suas redes sociais e indicando para aquele seu amigo ou conhecido que você sabe que vai se interessar por isso daqui.


Quanto mais o número de ouvintes cresce, mais o podcast tem força para buscar um patrocínio e assim é possível investir em episódios cada vez melhores.


E você também pode classificar o Arquivo Raw no seu tocador preferido. Cinco estrelas seria ótimo, mas você pode marcar quantas quiser.


E por último, você pode contribuir fazendo um pix com qualquer valor para chave que está na descrição desse episódio.


E é isso. Recados dados, vamos para a vinheta e para o tema.



<ENCERRA MÚSICA E ENTRA VINHETA

ENCERRA VINHETA E VOLTA SEM MÚSICA>



Henry Milleo

Então vamos lá pessoal, eu estou aqui hoje conversando com um cara com quem eu queria conversar há muito tempo, que é um cara que fala de fotografia em suas várias vertentes, com muita pluralidade, desde equipamento até o porque a fotografia existe ou porque a gente deve fotografar.


E esse cara é o Armando Vernaglia Jr. e eu vou pedir que na verdade ele se apresente. Eu sempre gosto de dar essa desculpa de se apresentar, porque eu acho que joga o convidado no fogo logo no começo, então Vernaglia, se apresente. Quem é você?


Armando Vernaglia Jr.

Bom, antes de tudo, obrigado pelo convite, Henry. Como eu costumo começar os meus vídeos no YouTube, eu sou o Armando Vernaglia Jr., fotógrafo, cinegrafista, professor, youtuber, músico e tomador de café, entre outros líquidos.


Eu acho que esse conjunto de apresentação que eu uso no YouTube é um bom resumo do que eu sou, as coisas que eu faço – nem todas elas pra ganhar dinheiro – mas basicamente fotógrafo, cinegrafista, youtuber e professor são minhas atividades de vida e profissionais já há muitos anos.


Henry Milleo

Você está há quanto tempo na fotografia? Já pra começar assim esquentando um pouco o caldo.


Armando Vernaglia Jr.

De fotografia profissional, uns 25 anos, 25, 26, pouco mais.


Talvez de fotografia – desde o início do meu interesse – há uns 30 anos, aproximadamente. E de YouTube já são 11 anos, profissionalmente falando.


Gravação de vídeo para clientes também uns 11 para 12 ou 13 anos. E professor, é o que eu faço há mais tempo, porque eu já era professor antes de ser fotógrafo. Então tem, pelo menos, uns 30 anos dando aula.


Henry Milleo

Você era professor do quê antes de ser fotógrafo?


Armando Vernaglia Jr.

Eu dava aula de informática. DOS, Windows. Era operação básica de computadores.


Henry Milleo

O primeiro computador que eu tive contato na vida foi em um curso que eu fiz no colégio de freiras onde eu estudava de DOS, com um MSX. E olha onde a gente chegou hoje.


Armando Vernaglia Jr.

Pois é, no colegial eu estudei Processamento de Dados, então naquela época eu comecei com meus primeiros trabalhos a dar aula de informática. Então quando eu tinha 15, 16 anos de idade, eu estava dando aula de informática e isso foi antes de eu me tornar fotógrafo.


Henry Milleo

E hoje a tua principal ocupação é fotógrafo, ensinando fotografia?


Armando Vernaglia Jr.

Eu acho que é esse conjunto de coisas, essas quatro palavras. Fotógrafo, cinegrafista, professor, youtuber. Elas resumem as minhas fontes de renda e os meus trabalhos principais.


Essas coisas se misturam muito, porque pra gravar uma aula eu também estou sendo cinegrafista, porque eu gravo as minhas próprias aulas e estou falando de fotografia. E para atender cliente eu atendo o cliente com foto e com vídeo.


Então esse conjunto, essas quatro palavras aí: fotógrafo, cinegrafista, professor, youtuber, respondem pelas minhas fontes de renda e as coisas que eu considero o trabalho.


Henry Milleo

O tomador de café e outros líquidos é a diversão?


Armando Vernaglia Jr.

Exatamente. Músico vira hobby e tomador de café e outros líquidos é aquela história: pra poder encarar tudo o que a gente chama de trabalho às vezes a gente precisa do café e dos outros líquidos.


Henry Milleo

Então vamos já deixar marcado que a próxima vez que eu for para São Paulo vamos tomar um café que eu também sou tomador de café.


Armando Vernaglia Jr.

Boa, com certeza. Conheço bons cafés aqui na área também. Então, quando estiver por aqui, avisa.


Henry Milleo

Mas vamos começar no tema.


O que eu queria propor pra você, que tem um conhecimento aí, que vai desde o pensamento fotográfico, passando pela composição, por todos os aspectos da criação de uma fotografia e chegando até os equipamentos, é que a gente – eu não digo responder, porque acho que seria muita ousadia, muita pretensão da nossa parte – mas que a gente filosofasse sobre a questão: o que faz uma boa fotografia, ou o que faz uma fotografia ser boa?


Até porque filosofar sobre questões de fotografia é o esporte preferido desse podcast.


Então eu queria te propor que a gente chegasse nisso, mas que a gente chegasse nesse ponto atravessando pela sua trajetória dentro da fotografia e chegando até uma coisa que eu acho muito importante que as pessoas geralmente não dão tanto valor ou não prestam tanta atenção no valor que isso deveria ter, que é o transmitir conhecimento. Que mesmo através de um tutorial no YouTube ou de um canal comentando alguma coisa, você está devolvendo para a fotografia algo que a fotografia te deu lá atrás.


Então eu queria que a gente fizesse esse exercício de tentar filosofar o que faz uma boa fotografia, mas transcorrendo através do teu trabalho, do teu ofício na área.


E como eu sei que você faz bastante vídeo de equipamento, então eu acho que a gente poderia começar por aí. Eu confesso que eu sou meio chato para falar de equipamento, porque eu sempre defendo que equipamento é importante, mas eu acho que um fotógrafo é mais importante que um equipamento ou que uma marca específica.


Mas enfim, tendo tanta coisa à mão hoje, inclusive em smartphones que tem uma qualidade interessante, o que é interessante para quem está começando, para quem já fotografa e quer investir em algo nesse momento que as fabricantes estão mudando e migrando mais para mirrorless e tal, mas que você também começasse contando um pouco como que você encontra o seu equipamento, como que você encontrou o teu primeiro equipamento pra gente ter uma ideia disso.


Armando Vernaglia Jr.

Olha essa coisa do equipamento versus fotógrafo, eu tenho uma visão de que é mais ou menos como acontece com um piloto de Fórmula 1 ou com um grande esportista. Sem o melhor equipamento, talvez você não desempenhe o melhor que você possa.


Então, se você tem um equipamento muito ruim em mãos, ele talvez te atrapalhe. Ele talvez impeça a realização de algumas das suas ideias.


Não é que o equipamento vai fazer a foto. Você precisa ter ideias. Sem ideias não adianta o melhor equipamento do mundo, ele é um peso para papel se você não tem ideias para fazer com ele.


Mas, por outro lado, um equipamento muito ruim pode ser impeditivo da execução das suas ideias. Eu digo isso porque eu comecei com a minha primeira câmera que era uma Zenit XP 12. A Zenit é uma péssima câmera. Não adianta, por nenhuma ótica que eu queira imaginar, achar algo de bom para falar dela, porque não tem.


Ela tinha, por exemplo, um seletor de tempo de exposição que ia de 1/30 de segundo a 1/500 de segundo e qualquer coisa que eu colocasse ali dava na mesma. Uma vez quando eu estava estudando, eu fui fazer testes de tempo de exposição e variei tudo ali, cliquei várias fotos, aí mandei para revelar e saíram todas iguais.


E aí eu perguntei no laboratório se eles fizeram alguma correção e o cara me disse que não, que estava tudo zerado na máquina de revelar, que não corrigiram nada. Me disseram: “o seu negativo está exatamente igual, de ponta a ponta”.


E eu alterei tudo na câmera e ela não mudou nada. Então, assim, se eu quisesse ter aprendido de fato alguma coisa com aquele equipamento, ele teria me bloqueado dessa hipótese.


E foi isso que fez com que eu me livrasse da Zênite e comprasse uma Pentax K1000, que era uma câmera confiável em termos de você regular algo e ela te obedecer.


Então, o ponto que eu quero dizer, é que não é que todo equipamento do mundo seja necessário para um fotógrafo. A gente pode fazer os nossos trabalhos com equipamentos até relativamente simples e básicos, os equipamentos de entrada que a maioria dos fabricantes tem hoje.


Eles já são muito completos e capazes, mas a gente tem que tomar um cuidado para não achar com muita confiança naquela frase de que quem faz a foto é o fotógrafo, porque se a câmera for um calhambeque, não faz.


Então eu acho que esse é um ponto para as pessoas pensarem. Não coloca todas as suas fichas na câmera, não adianta gastar todo o seu dinheiro nisso e muitas vezes é mais importante a lente do que a câmera, muitas vezes é mais importante a iluminação do que a câmera.


Então tem outros aspectos que as pessoas talvez tenham que ter mais preocupação e elas não têm tanto. Muita gente pergunta: que câmera eu compro? E talvez elas devessem se preocupar em como eu ilumino tal coisa? Como eu enquadro tal coisa, mais do que com qual câmera eu faço?


Mas, apesar desse ponto, eu acho que o equipamento é bastante importante no nosso dia a dia. No caso de como eu cheguei no meu primeiro equipamento, essa Zenit foi acidental. Era o que tinha numa loja, que cabia no dinheiro que eu tinha e foi um dinheiro totalmente jogado fora.


Depois eu tive que ir lá pedir uma ajuda pro meu pai e falar olha, não tá dando isso aqui não, aí meu pai me deu uma força e eu comprei uma Pentax K1000. A partir daí eu tinha câmera. A primeira era um peso, não servia para nada.


Depois de um tempo de Pentax eu fui para Canon, onde eu estou até hoje. É o equipamento que eu uso na maior parte desse meu tempo. Tive momentos variados com outras marcas, com outros equipamentos. Já meio que testei e usei de tudo. Acho mesmo que dá pra gente fazer o nosso trabalho com Canon, com Nikon, com Sony, com Fuji, basicamente qualquer uma das grandes marcas a gente consegue fazer o trabalho.


E aí o ponto que talvez as pessoas tenham que pensar é a adequação, o que vai ser adequado à sua necessidade. De repente, muita gente quando está no começo não sabe ainda qual é a própria necessidade. Mas essa é a chave principal: o equipamento. Ele não precisa ser excepcional, ele precisa ser adequado e ele sendo adequado – se você tiver boas ideias – aí você vai fazer boas fotos.


Henry Milleo

A minha primeira câmera também foi uma Pentax K1000, com uma lente 50 mm. Eu gostava muito daquela Pentax. Gostava tanto que eu fiquei muito triste quando eu tive que me desfazer dela para comprar outra, porque naquela época – eu não sei como é que era aí, mas aqui no Paraná – eu morava numa cidade do interior – o acesso era muito difícil.


Quando eu ia comprar uma outra lente, encontrava a Nikon, por exemplo, mas não encontrava tanto equipamento, tanto periférico, tanta lente para a Pentax. Então eu acabei migrando para Nikon, onde eu estou até hoje.


Trabalhei duas décadas no jornal com Canon. Gosto muito da marca, acho ela muito versátil, não me importo tanto com a marca da máquina, eu só me sinto mais confortável com Nikon. Acho que talvez por uma questão mais sentimental, porque eu peguei logo no começo uma FM2, que é uma tremenda câmera. Tenho ela até hoje, inclusive. Funciona até hoje. Então acabei ficando nela.


Mas eu concordo contigo quando você fala da questão da lente, porque os meus alunos de fotografia também sempre vinham com essa de “vou comprar essa câmera e devo comprar duas lentes mais baratas”.


E tudo bem quando está começando você montar um kit básico assim. Mas eu sempre digo: a lente é uma coisa que se ela for muito boa, você vai carregar ela contigo por muito tempo. Eu tenho uma 50 milímetros 1.2 da Nikon aqui, que é da década de 80, mais ou menos – eu comprei usada – e que ela vai até hoje, inclusive nas digitais que eu uso.


Mas assim: qual é o teu kit básico hoje? Para o teu trabalho?


Armando Vernaglia Jr.

Olha, se hoje eu me imaginasse mais no começo, mas com a consciência que eu tenho daquilo que eu uso no maior volume de vezes, eu vou te falar que se a gente pegar os modelos de entrada de boa parte das marcas – na Nikon das mirrorless a gente tem ali a Z30, Z50, da Fujifilm a X30, X32, da Sony a A6100 – todos esses modelos têm todos os recursos que a gente precisa. E as lentes de kit que são essas 18-55, 17-50, Elas tem os comprimentos que a gente vai usar na maior parte do tempo.


Então muitas vezes eu digo para o pessoal: compra um desses modelos, às vezes não o mais barato que o fabricante tem, sobe um degrau ou dois na linha do fabricante, e pega com a lente do kit. A lente do kit vai te ensinar quais são suas lentes favoritas, porque – da lente do kit – se você usa muito a ponta grande angular dela e sente falta de mais aberto, tá te ensinando que você precisa de uma grande angular mais ampla. Se você usa muito a ponta teleobjetiva da lente do kit e sente falta de mais, tá te ensinando que você precisa de uma tele mais longa. Se você usa muito mais o miolo da lente, tá te ensinando que você é aquele cara que vai usar uma 28, uma 35 milímetros e assim por diante.


Então, um tempinho com câmera e lente de kit vai ensinar muito para a pessoa sobre quem ela é na fotografia, o que ela mais gosta de fazer e o que ela mais sente falta.


Hoje eu tenho uma Canon R7, que é uma câmera APSC, não é uma full frame. Eu estou em vias de ver a aquisição de uma full frame que ainda estou decidindo se vai ser uma Canon ou uma Sony, porque eu tinha aqui uma full frame que ficava em parceria comigo através da Canon do Brasil, que fechou as parcerias e eu tive que devolver o equipamento deles.


Então ela, com a lente 24-105, que é de certa forma a lente de kit para uma full frame, 90% do que eu fazia era com isso.


Essa R7 eu tenho com a lente de kit que é uma 18-150 milímetros e 90% do que eu faço, os vídeos que eu gravo para o canal, têm sido com esse equipamento, então eu acho que muita gente despreza a lente de kit, mas é aquela história.


Agora voltando ao ponto que eu falei mais cedo, com boa iluminação a lente de kit vai fazer uma boa imagem. Com uma má iluminação a 50 milímetros 1.2 não vai render porque ela não vai salvar uma luz mal feita.


Uma coisa que eu gosto de separar é que o bom equipamento é o que te dá um arquivo excelente. Então vamos pegar uma full frame topo de linha, com uma lente fixa 50 ou 35 milímetros, dessas de abertura 1.2 ou 1.4.


Elas vão dar um excelente arquivo para gente. Elas vão dar alguma qualidade de gravação excelente, mas se a ideia for um lixo, vai ser um lixo bem executado, vai ser um lixo com uma lente boa, vai ser um lixo com uma câmera topo de linha, um lixo muito caro.


Henry Milleo

Tipo jogar purpurina no lixo da cozinha.


Armando Vernaglia Jr.

Correto. Então eu dou mais ênfase a quem busca um bom conhecimento de exposição e fotometria, para ter controle da luz. Um bom uso de flash, de luz contínua para saber desenhar com a luz, saber iluminar de fato, estudar os mestres da pintura para ver o que era uma boa luz.


Estudar os grandes fotógrafos pra ver o que é luz, o que é enquadramento.

Isso tudo vai dar mais para alguém do que se ela está ou não usando o equipamento que é de entrada ou um topo de linha.


Henry Milleo

Mas já que você – e foi uma coisa que eu gostei muito – que foi: “estude os grandes pintores, as artes plásticas”, vamos passar para o próximo tópico que a gente começa com equipamento e vamos para o conhecimento.


Quando eu aprendi a tocar violão eu ia na banca e comprava aquelas revistinhas de cifras – e o pessoal que tá ouvindo, isso é de antes da internet, antes do Bill Gates, dar o play lá no botão da internet, ok? – você tinha que ir na banca e comprar uma revistinha física.


Então eu aprendi a tocar – e não sou um virtuose no violão, nem nada eu só toco as minhas coisinhas – mas que depois, quando eu fui fazer aula num conservatório, eu tinha um monte de vícios errados. Tinha notas que eu não conseguia fazer porque eu segurava o violão de um jeito errado. E até hoje eu me pego segurando o violão de um jeito que não é 100% certo anatomicamente, para eu conseguir fazer algumas coisas.


Você acha que na fotografia é possível de se aprender fotografia sozinho? Eu estou te perguntando como produtor de conteúdo. Eu, quando aprendi, era aquele esquema. Você ia em um fotógrafo e virava assistente. Ele te ensinava e você era tipo o faz tudo, carregava a tralha, ajudava aqui e lá um dia ele deixava você fazer uma três por quatro. Mas você tinha uma presença perto de você, te ensinando.


Como você vê a transmissão de conhecimento sobre fotografia hoje em dia?


Armando Vernaglia Jr.

Eu acho que a gente tem grandes prós e grandes contras do tempo atual, porque assim, quando você não sabe nada, mas tem poucas opções de aprendizado, que era o nosso caso, no nosso tempo de começo, então você ia aprender fotografia sendo assistente de alguém ou, se tivesse uma escola perto de você.


Porque não tinha muitas escolas aqui em São Paulo. Quando eu comecei tinha quatro ou cinco escolas de fotografia. Hoje já tem, sei lá, centenas ou milhares, fora o que tem está na internet.


Então o fato de ser tão pouca opção, pelo menos impede você de se perder demais na jornada. Mas era assim. Se eu queria estudar fotografia era buscar um curso de fotografia ou um profissional de fotografia para tentar ser assistente. Não tinha muita opção. Você seguia nessa trilha de poucos caminhos.


Hoje, obviamente, tem muito mais opção de conteúdo. Só no YouTube, gratuitamente, você tem milhões de horas de conteúdo fotográfico. Só no meu canal tem 600 vídeos. E se olhar para outros youtubers, então só em língua portuguesa você já tem dezenas de milhares de horas de conteúdo fotográfico em português.


Se a pessoa tiver um conhecimento de inglês, de espanhol, mais outros milhões de horas disponíveis ali para estudar.


O problema de ter tanta disponibilidade é não saber por onde você começa e o que vem depois de cada coisa, porque você pode terminar de ver 200 vídeos na internet e ainda não saber fazer nada, porque aquilo ficou desordenado, pesado, sem uma ordem formal que te coloca em uma trilha de aprendizado.


A educação em casa, o ensino autônomo, ele tem essa armadilha. Isso é estudado academicamente, que a pessoa sozinha ela vai ser guiada pelos próprios interesses. Como ela não sabe o assunto que ela está aprendendo, ocorrem inúmeros desvios e falhas. Deixam buracos variados de aprendizado e aquele aprendizado guiado que foi didaticamente planejado, ele já busca suprir esses buracos, essas falhas e tal.


Então eu acho que é possível alguém aprender sozinho e gratuitamente através de YouTube, mas acho que isso vai consumir mais tempo dessa pessoa do que se ela fosse para um curso.


O curso já foi organizado. E se for um curso que existe há um certo tempo, o profissional que dá aula do assunto já foi recebendo as dúvidas dos alunos ao longo do tempo e filtrando o material, melhorando o material, tornando-se um professor didaticamente mais preparado, porque os alunos vão nos ensinando o buraco do nosso discurso enquanto a gente dá aula.


Porque na hora que alguém te faz uma pergunta que você não havia pensado, você entende que falhou na construção do teu conhecimento. Isso é melhor? É melhor.


Então assim, ter professores é um atalho importante na construção do conhecimento. Ter a disponibilidade de conteúdo gratuito no YouTube é bom, mas sem organização é só uma montanha de dados.


E aí você iniciante, que não sabe das coisas, tem que organizar esses dados, mas você não sabe por onde começar. Então eu acho que sim, é possível aprender no YouTube, mas vai demorar mais do que a pessoa indo para um curso. No curso a coisa está um pouco mastigada para a pessoa, um pouco organizada, e aí ela acaba usando o YouTube como auxiliar.


E aí eu acho que o grande lance do YouTube, então você está lá fazendo um curso, de repente no curso passou por um tema como composição ou fotometria. E aí você vai para o YouTube. Ah, deixa eu ver. Hoje eu aprendi sobre composição no meu curso. Deixa eu ver 50 vídeos sobre composição.


Aí você complementa a informação e aí você tem a riqueza de multiplicidade dessa informação.


Henry Milleo

Isso que você falou eu achei uma coisa interessante, porque eu dei uma olhada no teu canal e a gente vê que tem uma lógica, ele tem um andamento do primeiro vídeo até o último. É claro que no meio entram algumas coisas que são específicas de algum assunto que está acontecendo naquele momento, como o lançamento do equipamento ou uma discussão sobre fotografia que você tá fazendo. Só que a pessoa não necessariamente segue esse passo a passo, né?


Por exemplo, quando eu comecei a editar vídeo, eu peguei na época o Adobe Premiere – hoje eu trabalho com vários programas, inclusive com a Adobe – e falei: eu vou ver como é que faz isso. E aprendi com tutoriais. Depois eu fui fazer um curso, e esse curso organizou as coisas na minha cabeça.


Coisas de dizer: eu sabia fazer isso, mas eu sabia fazer de um jeito muito mais difícil. Então o problema seria mais essa busca, tipo o fotógrafo que está começando, ele vê uma foto com um panning, por exemplo, e ele descobre que o nome daquilo é panning, e ele quer aprender a fazer aquilo especificamente. Mas ele ainda não tem o que vinha antes daquilo, que era questão de velocidade baixa, movimento de câmera, ângulos…


O problema nesse caso é a forma como se consome, como se busca esse conhecimento e não a forma como o conhecimento está dentro das plataformas?


Armando Vernaglia Jr.

A gente tem muito isso hoje. O estudo está muito assim. As pessoas estão mais imediatistas, de forma geral.


Henry Milleo

Totalmente, totalmente.


Armando Vernaglia Jr.

E aí elas buscam o conhecimento dessa forma imediata. Por exemplo. Neste instante eu quero aprender tal coisa e procura lá o panning. E vai querer entender o panning.


Não necessariamente essa pessoa quis saber o que é tempo de exposição, como funciona, como é a reciprocidade entre tempo de exposição, abertura e ISO. Não necessariamente a pessoa fundamentou o conhecimento. Ela vai lá e às vezes ela até consegue executar um panning. Coloca a câmera em prioridade de tempo, ouviu o tempo que o youtuber falou que era bacana de fazer, foi lá e treinou, treinou, treinou e fez.


O problema de quem fizer a formação nesse caminho é que ela vai ter de certas habilidades para criar certas fotos e postar no Instagram dela, mas a hora que isso vira trabalho e o cliente pede coisas específicas, é a realização do específico que um cliente pede que dá trabalho para a gente.


É pensar assim: “Ok, isso eu preciso dominar tal técnica para fazer o que cliente pediu”. Não é uma coisa que está saindo da minha cabeça, porque executar as coisas da minha cabeça estão dentro dos conhecimentos que eu posso ter, que são até pequenos. Eu sei pouco, mas eu executo esse pouco? Se sim, tudo bem.


Agora, quando se abre a porta para as ideias dos outros, se você não tem fundamentação técnica para a execução, começa a complicar a vida. E é como você falou. Se a pessoa só guiou o aprendizado dela por objetivos de curto prazo, ela sabe um monte de coisas superficiais. Na hora que entra um trabalho grande, alguma coisa assim, o castelo de cartas do conhecimento superficial cai rápido. Por isso que é bom a pessoa se cercar de uma fundamentação.


Então, sendo possível - lógico que a gente vive no Brasil, as pessoas não têm acesso financeiro, porque o Brasil é desigual de uma forma brutal - então, dentro das possibilidades de cada um, se a pessoa puder arcar com o investimento em cursos que organizem o conhecimento dela, com certeza ela vai estar mais bem preparada.


Henry Milleo

Esse imediatismo é muito do tipo eu não quero complicação. Só que daí quando você chega no mercado de trabalho, você vai ter as complicações. Quando um produtor que está passando um briefing diz: eu quero essa luz mais aberta. O que é uma luz mais aberta? Ou: eu quero uma sombra dura nesse lado do rosto. Não sabe o que é aquilo, Não sabe como fazer.


Armando Vernaglia Jr.

Olha, tem vários pontos aí. As coisas mudam com o tempo, as tecnologias mudam e essa mudança é alheia ao nosso conforto, vamos colocar dessa maneira.


Então, assim. Quando a gente começou, nós precisávamos imaginar o resultante da fotografia, daquelas regulagens, de tudo que a gente está fazendo, porque não tínhamos como ver. A única chance que tínhamos era imaginar.


Então você tinha que pegar lá o fotômetro e falar: olha, isso aqui está mais claro aqui. Aponta fotômetro pra baixa luz para alta luz, para o meio. Você vai lá e fala: ok, essa luz é tanto e o brilho vai estar ali, a sombra vai estar aqui e assim por diante.


Tecnologicamente a coisa mudou e evoluiu para um ponto em que a resultante pode vir primeiro do que o pensamento. Então você pode clicar para ver como é que fica. O resumo seria esse. Eu estou vendo um negócio aqui na minha frente. Deixa eu clicar para ver como é que fica e trabalhar em cima disso. É uma inversão da lógica operacional do que a gente acostumou.


Eu não acho necessariamente que seja nem certo nem errado, mais o tempo atual é esse, porque os equipamentos são assim. Então eu acho que talvez seja um pouco contraproducente a gente virar para um aluno de hoje e falar assim: olha, fecha aqui o monitor da câmera não olha para as coisas e tal, para que você fotografe como era antigamente.


Eu tenho buscado no ensino um caminho que é assim: faz a foto, põe no automático a câmera, põe tudo no automático, deixa a câmera fazer. Tirou a foto, me mostra o que você gostou e o que você não gostou.


Ah, eu queria isso diferente. Então agora você precisa entender a abertura que desfoca o fundo que você queria. Agora você precisa entender porque saiu escuro, ou saiu claro. Então agora você precisa entender fotometria…


Então eu deixo que a pessoa se incomode com o resultado que ela obtém sozinha para que ela crie aquela inquietação de que ela realmente vai precisar estudar isso aqui. Então a estratégia é deixar que a pessoa usufrua desse imediatismo e também se decepcione um pouco com ele, porque aí a pessoa volta falando: Mas por que o fundo não ficou assim? Por que a luz tá desse jeito? Porque é que deu muito grão na imagem?


Então agora nós temos uma matéria prima para trabalhar aqui, em cima dessas dúvidas, ou seja, porque as suas dúvidas estão todas elas lastreadas nos fundamentos da fotografia, que talvez seja o caso de você aprender.


Henry Milleo

Achei genial, mesmo. Porque na minha linha de raciocínio, eu partia de como eu aprendi. Primeiro você vai aprendendo técnica fotográfica e você vê o resultado depois. Mas essa inversão é realmente um processo inteligente de ensinar. Eu não realmente não tinha pensado dessa forma.


Eu sempre tentava fazer o que me parecia o ritmo natural. Você precisa entender o que é a fotografia, inclusive tecnicamente, para depois ver o resultado. Eu não sou contra a tecnologia, eu sou a favor.


Ainda fotografo com filme, mas por questão minha, de gostar mesmo. Mas achei ótimo esse processo. O difícil é você fazer os alunos entenderem esse processo inverso. Você tem tido bons bom resultado?


Armando Vernaglia Jr.

Então, como eu alterei o meu sistema de aula há algum tempo, justamente porque o tempo digital é assim. E eu tenho um ponto de mudança na minha vida que foi o Steve McCurry. Grande fotógrafo, sei lá quantas capas da National Geographic.


Henry Milleo

Todas, todas.


Armando Vernaglia Jr.

Esse cara certa vez, numa palestra, falou que ele usava a câmera no automático.


Perguntaram pra ele como ele regulava a câmera e ele falou: “Olha, boa parte do tempo eu uso o automático”.


Houve um silêncio constrangedor lá na audiência para qual ele falava. Porque, poxa, o cara tá fazendo capas da National Geographic no automático.


Henry Milleo

Sim, e é o Steve McCurry, né?


Armando Vernaglia Jr.

Sim, é o Steve McCurry. E isso em tempos de filme ainda, tá?


E ai ele deu uma explicação que eu achei interessante. Ele falou: olha, eu sou um fotógrafo norte-americano. Com todas as implicações de ser um norte-americano em certos países em que eu estou para fotografar.


Então, se eu vou fazer uma reportagem no Iraque, no Afeganistão e eu sou um cidadão americano, eu sou um problema, eu sou o inimigo, eu sou o cara errado no lugar errado. Então eu não posso demorar fazendo as minhas fotos. Eu não posso criar uma complicação para mim ali naquela hora ou criar um potencial conflito para mim ali naquela hora.


O automático das câmeras hoje funciona bem o suficiente para que eu não me preocupe com isso. E ele falou esse “hoje” nessa palestra que foi em 1996, 1997.


Então o cara estava fotografando com uma Nikon F4, ou algo assim dessa geração de equipamentos em filme, e esse cara usava a câmera no modo P o program da câmera daquela ocasião.


E aí eu me pus a pensar porque eu nessa época era aquele jovem que acreditava que eu tinha que estudar o Ansel Adams, o sistema de zonas. Eu dava aula de sistema de zonas. Assim, no comecinho dos anos 2000 eu dava aula de fotometria com curva característica de contraste de filme, sabe? Esse tipo de coisa?


Henry Milleo

Latitude de erro de cada película…


Armando Vernaglia Jr.

Exatamente. Então, se você concentrar mais o revelador aqui você tem a curva de contraste ali e assim vai. Eu dava aula desse tipo de coisa.


E aí eu falei: mas o Steve McCurry é obviamente maior que eu. O material dele é obviamente melhor que o meu, não tem comparação.


Eu não estou no patamar profissional desse cara e esse cara aí tá dizendo que usa a câmera no automático até em uma capa da National Geographic.


Então eu preciso entender o que ele está fazendo, eu preciso entender o que ele está dizendo e entender que o automático funcionava foi uma abertura de horizontes importante na minha vida.


Então eu pensei: vou colocar a minha câmera no modo P e vou sair para a rua fazer as fotos. E eu descobri que o cara tinha razão, porque aquilo funcionava. Lógico que funcionava dentro do que o sistema foi programado. Faz cinza médio o tempo inteiro, então ela não subexpõe, ela não superexpõe nunca. A câmera não é capaz de tomar essa decisão, a não ser que eu vá lá na compensação de exposição e mande ela fazer.


E aí, quando eu comecei a entender como é que a compensação de exposição funciona, eu falei: Ah, então tá, eu continuo a fotometrar. A câmera faz cinza médio e eu digo cinza médio mais um, cinza médio menos um. E aí eu entendi a grande chave do automático, que não existe automático, só existe ponto de partida. É cinza médio. A câmera faz sozinha e eu posso trabalhar a partir daí.


A partir daí eu entendi o tamanho da liberdade que isso representou pra eu pensar na composição. Quando eu larguei mão de ficar pensando em abertura, em tempo eu melhorei minha composição. Eu já era professor de fotografia nessa época, então eu me senti até envergonhado porque eu dava tanta preocupação pros meus alunos sobre ter que entender a abertura, ter que entender o tempo.


E aí eu decidi que eu tinha que ensinar composição primeiro e a técnica viria depois. Eu sempre ensinei isso ao contrário, porque eu aprendi ao contrário. Nos cursos que eu fiz lá no meu começo, eu aprendi técnica primeiro. Como é que fotometra, como é que expõe, como é que tá a abertura e o que ela faz com a profundidade de campo, e essa coisa toda que você passou por isso também.


E eu descobri que eu ensinava tudo ao contrário, porque eu aprendi tudo ao contrário. E essa inversão combina com o tempo atual, ou seja, a estética vem primeiro, aí depois você corre atrás pra entender o que é que a técnica vai fazer por essa estética. Mas é só inversão.

Então hoje eu ensino composição muito mais e quando a pessoa fala assim: eu fiz a estética, eu cheguei, mas eu queria outra coisa, outro refinamento. Aí a gente vai ter que mexer na técnica, fundamentar isso.


Mas eu acho que o ensino é uma coisa mutante no tempo, assim como a fotografia. Vai ver o que era moda quando a gente começou e o que é moda hoje.

As capas de revistas são outras – aliás, quase não existe mais revista. Então o ensino mudou junto e a gente foi se adaptando. Acho que faz, faz parte. E amanhã, de repente, muda tudo de novo e a gente tem que se adaptar de novo. Faz parte da vida. É bom que mantém o nosso cérebro funcionando, então a gente não pode acomodar.


Se a gente parar para pensar a aula que você teve quando você aprendeu a fotografar lá no começo, ainda hoje ela ensina a mesma coisa. Só que talvez ela não seja pertinente no tempo de hoje, porque as pessoas mudaram.


Se a gente pensar que aquilo que eu aprendi há 20 anos ainda vale hoje é um pouco estranho e um pouco esquisito. É estranho pensar que um conceito aprendido do passado siga valendo se a gente está falando de tecnologia e a tecnologia muda. Então eu acho que é natural mudar.


Henry Milleo

Outro passo que seria e que ainda entra na questão aqui – e que foi bacana porque você tocou nesse ponto agora – que é a composição. Eu sempre fui muito defensor disso também, de você apurar muito o olhar porque, em teoria, a técnica todo mundo aprende. Mas o que faz você ser um Steve McCurry é toda uma outra questão, é todo um outro aprendizado e desenvolvimento.


Então é claro que existem ‘regras básicas’ – vou deixar isso entre aspas – mas elas são mais um norte para o início da viagem, não? São mais uma forma de apurar o olhar para se destacar no cenário da fotografia. Mas como eu me destaco no cenário da fotografia? Existe diferença entre composição para trabalho mais autoral, composição para trabalho mais comercial? Que tipo de referência é interessante?


Porque, assim, uma coisa que eu vejo, que eu sempre falo e falo aqui no podcast o tempo todo, é que eu acho que as fotos de determinados segmentos elas são muito iguais. Que o próprio mercado deixa pouca margem para o fotógrafo desenvolver o seu próprio estilo. Então você tem dois ou três caras que são conhecidos, são famosos dentro da área dele e que vão em congressos ou qualquer tipo de evento assim, e dizem: hoje o que é moda, o que está se fazendo é isso daqui.


E aquela plateia de 1200 pessoas, duas mil pessoas copia tudo aquilo, quando na verdade você tinha que ter 1200 ou 2000 fotógrafos diferentes, com estilos similares em algumas coisas, mas cada um com a sua própria identidade ali. Como fazer isso usando a composição? O que é importante, realmente importante?


Armando Vernaglia Jr.

Olha, eu vou puxar uma sardinha aqui. Como você toca violão, então nós podemos falar um pouco de música para pegar uma arte vizinha para comentar a respeito.


Na música você pode ter dois músicos igualmente interessantes de se ouvir. Um totalmente alheio à técnica e outro fruto de um estudo formal de conservatório. Então, de repente, você tem um cara fazendo um improviso no jazz – e que ele não sabe escrever a partitura daquilo que ele está fazendo – e um outro cara executando uma peça escrita com partitura, com tudo o mais, e aos nossos ouvidos ambos estão soando maravilhosamente bem, porque ambos entenderam o negócio chamado harmonia.


A harmonia é um conceito muito interessante na música e pouco explorado na fotografia, que eu gosto de resumir da seguinte forma: É harmônico aquilo que parece bom para você. Soa bem no seu ouvido, não parece barulho, não parece esquisito, não parece errado para o seu ouvido naquele momento? Então é harmônico. Teve harmonia.


A culinária também é igual. Você pôs um, dois ingredientes, experimentou. Não te pareceu estranho, pareceu gostoso? Então harmonizou. E assim vamos indo, que é o primeiro passo da composição fotográfica.


E a harmonia é você fazer algo, é olhar para aquilo e falar: gostei ou não gostei. E aí a gente começa a apimentar o conceito de harmonia.


Eu gosto de pôr na seguinte pergunta: tá bom? Tá bom. Isso que você fez é harmônico? É harmônico. Você gostou? Gostei. Agora, você colocaria essa foto na parede da sua casa? A pessoa já dá uma pensada, porque ela pensa: Se eu for pôr na parede de casa, eu vou olhar para isso aqui todo santo dia. Será que eu gosto de olhar isso aqui todo santo dia?


É uma outra história, é uma outra relação. Alguém que você conhece compraria isso aqui? Você gostou, mas alguém compraria? Você já viu isso em algum lugar? Já viu isso numa loja? Já viu isso em algum cardápio? Já viu isso na capa de alguma coisa? Se ninguém está comprando essa ideia, tem duas opções: ou você é um gênio e acabou de descobrir algo, ou isso é um lixo e ninguém está fazendo porque é um lixo. E você pode apostar que você é um gênio, mas as chances são que você vai se decepcionar um pouco.


E desse conflito entre a harmonia que gostamos e a harmonia que o mundo gosta, a gente vai achando o que é o nosso caminho. Nosso caminho vai ser dado pelos conflitos que a gente vai aceitar ou não.


Eu tenho muito medo quando as pessoas falam em estilo próprio no seguinte sentido – e talvez seja um pouco polêmico esse trecho aqui – mas é o seguinte: Pablo Picasso tinha um estilo. O estilo do Pablo Picasso era próprio – mais ou menos porque ele copiou de máscaras africanas, de outras fontes que ele tinha no repertório dele e que outras pessoas não tinham.


Então ele pareceu inédito para algumas pessoas, mas ele estava ciente de que ele não era exatamente inédito porque ele estava pegando referências que ele tinha. Não saiu do nada a ideia dele, mas vai lá. Pablo Picasso fez muito sucesso com a sua pintura. Só que o Pablo Picasso era rico antes de começar, ele já tinha os boletos pagos.


Quando você tem os boletos pagos, você assume o risco do ineditismo diante da sociedade à vontade. Então você fala assim: olha, eu tenho o meu estilo, eu viajei para tais países, absorvi tais influências e esta é a minha pintura, esta é a minha foto, esta é a minha culinária, esta é a minha música. Mas se você tem os boletos pagos e ninguém compra, tudo bem, você vai continuar feliz com a sua manifestação artística.


Eu gosto de citar os pintores do impressionismo, Monet, Cezanne, Manet, Pissarro, Camille Claudel, enfim, toda a galera do impressionismo francês. Todos tinham boletos pagos, era tudo gente bem de vida. Ninguém ali precisava vender um quadro para se sustentar. E resultado? Eles não venderam os quadros deles em vida. A maioria deles, nos dias de suas mortes, tinham centenas ou milhares de quadros guardados nos seus porões, porque só às vezes vendiam alguma coisa.


Mas naquela época não era moda, não foi aceito, não deu certo. Mas eles estavam com os boletos pagos, então tudo bem. Depois das mortes dos artistas do impressionismo, todos eles viraram retumbantes sucessos porque entrou na moda. Por alguma razão viram valor. Aí é outro assunto da história da arte.


Mas vamos retroceder no passado um minuto. Estamos falando de um período moderno da arte onde as pessoas não estão necessariamente vendendo sua arte, porque nem precisam. Vamos retroceder no passado e chegar lá na Renascença, nos tempos de Da Vinci e de Michelangelo e os grandes mestres renascentistas. Eles estavam prestando serviço para quem tinha dinheiro naquela época. Então Michelangelo e Da Vinci prestavam serviço para os ricos mecenas que eram banqueiros ou para a Igreja Católica na decoração de igrejas e tal. Eles eram grandes prestadores de serviços.


Pouca gente teve a oportunidade de ver como são os contratos dos artistas renascentistas para os clientes deles, mas isso lá no ano 1400 já tinha contrato. Eu conheci uma vez uma pessoa que teve acesso aos contratos que Michelangelo assinou para pintar o teto da Capela Sistina, na Itália, e o contrato que tinha cerca de 70 páginas de obrigações.


Michelangelo prestava serviço e atendia o cliente. As vontades do cliente, do mesmo jeito que eu e você. Essa ideia do estilo, do artista com estilo, é uma ideia que vai surgir depois na arte.


Henry Milleo

Mas é uma ideia possível?


Armando Vernaglia Jr.

Então. Eu acho que ela é, mas ela é arriscada se você não tiver com os seus boletos pagos.


Henry Milleo

Mas você acha que é algo que é algo que o fotógrafo deve almejar?


Armando Vernaglia Jr.

Não acho, não acho não. Eu acredito que… Eu vou dar um outro exemplo da música. Um violinista excelente numa orquestra de primeiro nível, ele não está executando uma única nota dele. Está tudo em uma partitura que foi escrita antes dele, obedecendo às ordens do maestro de como ele deve fazer aquilo.


Então é assim o músico erudito. Ele é um seguidor de ordens pré-estabelecidas, ou seja, o que está na partitura ou o que o maestro está dizendo para ele. Então ele tem estilo? Não. Mas ele pode ser um profissional altamente bem-sucedido? Sim. E eu gosto desse exemplo pelo seguinte: o principal violinista de uma grande filarmônica do mundo tem um salário incrivelmente alto e ele não faz nada dele. E tudo bem, isso não é polêmica para um músico erudito. Ele só executa o que ele é mandado fazer com qualidade técnica irrepreensível.


Aqui do meu lado eu tenho uma artista que é a minha esposa, a Cristiane, e ela tem trabalhos autorais dela na pintura e ela tem os trabalhos técnicos que ela faz para a ilustração científica de livros.


Na ilustração científica você tem que desenhar exatamente o que o negócio é, porque você não pode inventar. Então, se é a reação química do átomo tem que ser desenhada de tal jeito, ela tem que ser desenhada de tal jeito. E o biólogo ou químico que escreveu o livro está dizendo para você que é assim. Se ela desenha o corpo humano com o coração, o coração não pode ter uma artéria a mais ou a menos, tem que ter o que é.


E ela faz atlas de anatomia, então tem que ser daquele jeito. E ela é contratada e requisitada pelo mercado editorial para executar aquilo com o típico brilhantismo que normalmente ela executa.


Então, o estilo pode existir, mas ele não necessariamente é uma meta a ser atingida, porque se a pessoa for um perfeito executor das ideias dos outros, ela poderá ser um excelente fotógrafo de publicidade, por exemplo, ou fotógrafo social de casamento.


Por exemplo. Ele não vai fazer totalmente a coisa da cabeça dele, porque o casamento são pessoas que estão lá, que são aquelas. Ele não está escolhendo o cenário do casamento. É a igreja, é o salão que os noivos escolheram, com a decoração que eles escolheram e não o fotógrafo. Então você vai trabalhar com o cenário que está posto, com pessoas que estão postas, com a realidade que foi escolhida para ficar na sua frente.


E aí, é lógico que você vai fotografar aquilo de acordo com sua história, suas referências, suas técnicas e suas coisas, que é o seu estilo. Você não se separa dele, você não tem escolha. Ter um estilo não garante que você paga boleto. Esse é o ponto central dessa conversa.


Henry Milleo

Mas aí a gente está falando – e eu acho que a grande maioria dos ouvintes é assim – do fotógrafo que é profissional e que tem a fotografia como a sua fonte de renda. E é claro que se você vai fazer foto de um vidro de perfume com fundo branco, para um material publicitário, pouco você tem no que variar. E no casamento mesmo, você tem alguns elementos que te engessam, mas você também tem uma certa liberdade de criar mais do que um produto num fundo branco.


Então existem vertentes da fotografia que te permitem fazer isso mais? Ou existe a possibilidade do fotógrafo que, sei lá, ele trabalha com cobertura de eventos em palestras, mas ele tem um projeto pessoal dele dentro da fotografia. Aí o estilo dele entraria nesse projeto ou nessa pequena parcela mais artística dentro do ofício. Mas é possível?


Armando Vernaglia Jr.

Sim, possível é. Só que eu não vejo que o estilo deva ser uma meta, uma meta, algo a ser perseguido. Sabe aquela coisa de ‘você tem que ser, você tem que ter estilo?’ Não necessariamente, porque vira uma pressão adicional pra quem está começando e não necessariamente a pessoa quer. Às vezes a pessoa só quer ter um trabalho.


Henry Milleo

Só um ofício?


Armando Vernaglia Jr.

É. Você quer ser bem-sucedido naquilo, quer pagar as contas e ter uma vida, o que não é errado. Às vezes a pessoa não tem uma visão artística da fotografia, às vezes ela tem uma visão funcional da fotografia, e isso também é válido, também tem seu lugar.


Henry Milleo

Também cria bons fotógrafos.


Armando Vernaglia Jr.

Exatamente. Então o ponto só do estilo que eu, pelo menos como eu prefiro pensar, e isso não está certo nem errado, é só o que é minha preferência de pensar, eu acho que ninguém é alheio ao próprio estilo. O estilo nasce naturalmente na gente porque a gente tem preferências. Então você viu filmes, você leu revistas, você leu livros, você viajou… Aquilo que você viveu construiu você de algum jeito. E estava vivência é inseparável de você.

Então, naturalmente, você faz uma foto de um jeito que você acha mais bonito ou mais interessante, porque você aprendeu desta forma.


Por exemplo, a gente citou o Steve McCurry – tem outros grandes nomes aí que a gente poderia passear, como Sebastião Salgado, entre tantos grandes da fotografia. O Araquém Alcântara, que é um gênio.


Aí de repente você fala assim: olha, se eu vi tudo o que o Araquém Alcântara postou e gostei do que ele faz e eu me ponho na fotografia documental de natureza, que é outra área dele também, naturalmente a minha foto vai ter similaridades com a dele, porque eu consumi tanto o que ele faz que ele acabou sendo uma influência para mim.


Então o teu estilo é a somatória das tuas coisas, das tuas preferências, dos teus gostos. Em um dado momento, talvez seja interessante o fotógrafo se pôr na reflexão de o que ele gosta, porque ele gosta e como isso moldou o trabalho dele.


E aí você fala: teu estilo é esse, se usa mais tal lente, você usa mais tal abertura, você enquadra de tal forma, você expõe de tal forma... Isso é o teu estilo. E às vezes a gente nem percebe. Então, se colocar em um raciocínio de depois de um tempo olhar para trás, ver tuas fotografias e analisá-las um pouco: como é que eu exponho, como é que eu enquadro, como é que eu foco ou desfoco, qual o ângulo de visão que eu mais uso, qual altura de câmera que eu mais uso? Aí você vai olhar para o seu trabalho e falar assim: eu tenho estilo, tá aqui. E aí você vai tornando ele proposital do momento dessa consciência em diante. No começo ele é inconsciente, mas ele vai acontecer, quer queira, quer não.


Como eu falei, o Pablo Picasso iria pintar de acordo com as influências que ele teve. Porque ele teve essas influências. Então as influências vêm antes. O que eu gosto na fotografia vai impregnar a minha obra e eu não tenho nem como evitar. E assim, essa preocupação com o estilo, ás vezes eu penso que ela é exagerada, porque o estilo todo mundo tem.


Então, daquelas mil pessoas naquele congresso de fotografia, mesmo que todas elas se dediquem muito a imitar aquilo que elas viram no palco daquele congresso, elas ainda vão adaptar a realidade delas. E assim o estilo da pessoa vai imperar sobre a vontade dela. Mas ela foi naquele congresso e aquilo passou a ser parte do estilo dela, porque ela absorveu uma informação ali.


No ano que vem ela vai ao Congresso e absorve uma nova informação e dali a alguns anos, das duas uma, ou ela começou a perceber o que é o próprio estilo e se torna independente de ir e vir de modas e congressos, ou pro resto da vida ela vai consumir a moda do ano e se adaptar à moda do ano, sendo então um excelente prestador de serviço do que está na moda.


Então são dois caminhos possíveis. Se a fotografia para a pessoa for muito funcional, ele vai seguindo as modas de cada ano e se ajustando tecnicamente a elas. E se ele tiver uma visão um pouco mais artística da fotografia, ele vai começando a entender o que é o próprio estilo, vai fechando a narrativa visual dele dentro dessas amarras que ele próprio cria, que é o próprio estilo.


E se ele estiver sabendo vender isso, maravilha! Ele segue tendo clientes, apesar de que ele vai saindo da moda, ele vai sendo ele a sua manifestação visual. Agora, estilo a gente só tem se tiver repertório, porque as ideias nossas não saem do nada. O cérebro humano precisa combinar dados.


Henry Milleo

Tem que ter bagagem.


Armando Vernaglia Jr.

Exatamente. Você tem que ter visto alguma coisa, você tem que ter testado, você tem que ter treinado. Ninguém desenvolve o estilo.


Por exemplo, nós estamos aqui conversando. Alguém que ouvir esse papo, essa uma hora e meia de papo, o estilo dela não mudou. Se ela não pegar a câmera e pegar o que ela ouviu nesse papo, se não for procurar ver quem é Steve McCurry, que é Araquém Alcântara, quem é Sebastião Salgado, quem são esses dois caras que estão conversando nesse bate papo, qual o portfólio deles, se a pessoa não for ver e depois não pegar a própria câmera e for testar, isso não vira estilo, não vira nada.


Só vai ser um gasto de tempo da pessoa que ouviu isso enquanto, sei lá, está correndo na esteira na academia…


Henry Milleo

Ou lavando louça


Armando Vernaglia Jr.

Sim, lavando louça.


Então tem que pegar isso que a gente está conversando e fazer alguma coisa com isso. Aí você absorve. E isso é parte do seu estilo, quer a gente queira, quer não. Tudo o que eu vi na vida virou parte do meu estilo, inclusive essas coisas que eu não gostei porque elas definiram o que eu não queria fazer.


Henry Milleo

Você acha que essas referências de fotógrafo – isso é uma coisa que eu sempre digo, que elas tem que ir além da fotografia ou além só do consumo visual.


Por exemplo. Uma coisa que eu sempre digo – porque a minha atuação principal na fotografia é no fotojornalismo, quando eu comecei a fotografar com meus 17 anos, eu já comecei em um jornal e, em teoria, eu tinha uma certa liberdade para criar dentro dos assuntos, porque não era todo dia o mesmo assunto.


E por mais que você pega o fotojornalismo – e eu até digo isso em um dos episódios – que ele é muito igual, e isso você consegue ver muito bem em fotografia esportiva, por exemplo. Foto de futebol são todas muito parecidas, independente se é o Real Madrid que está jogando ou se é o time de várzea. Sendo coberto por um profissional ela é mais ou menos o mesmo estilo.


Mas eu sempre dizia – porque eu trabalhava no interior e rodava muito aqui no Paraná. Eu rodei o Paraná inteiro. Trabalhava na sucursal de um grande jornal, então cobria muita coisa. Passei 11 anos cobrindo o MST. Então eu ia para todo tipo de lugar e eu chegava nas cidades pequenas e a minha referência não era visual, minha referência era da Macondo, do 100 Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez.


Então eu sempre acreditei nisso, que as melhores referências que eu tinha para criar o meu trabalho dentro da possibilidade de liberdade que eu tinha de criação, elas não eram necessariamente visuais.


Armando Vernaglia Jr.

Eu acho que vai bem por aí, porque, por exemplo, quando eu falei do conceito de harmonia para fotografia, em um dos meus cursos, que é o curso de composição, ele tem uma aula só sobre harmonia e eu só falo de música nessa aula, porque a música tem as métricas, os compassos, as coisas que vão gerar muito da harmonia.


E quando a gente fala em fotografia, a regra de terços, por exemplo, que todo mundo fala da regra de terços, que é o básico da composição, nada mais é do que um compasso em três por três. É uma valsa.


Então isso existe e a gente pode começar a pensar e falar e eu posso começar a imaginar a imagem como ritmo. Posso imaginar o ritmo de uma cena e transpor o auditivo para o visual. Você pode pegar a narrativa da literatura e as imagens que essa narrativa constrói na tua cabeça à medida que você vê um lugar que combina com aquilo que você imaginou.


Você não precisa ter visto uma foto daquilo, mas aquela narrativa que você leu, que você leu um Grande Sertões, você leu um Dostoiévski, você leu… qualquer coisa que você tenha lido, a hora que você bate o olho e fala: cara, isto aqui tem a ver com aquela cena que a tua cabeça tinha montado.


Henry Milleo

Até a cadência de leitura.


Armando Vernaglia Jr.

Exatamente.


Então quando eu falo de repertório, é tudo e qualquer coisa. Culinária, fotografia, cinema, literatura, pintura, design gráfico, designer de objetos, arquitetura e tudo isso. São artes, culturas…


Se a gente extrapolar, a gente vai para outras coisas. A gente pode ter lido algo sobre ciência e aquele conhecimento científico, que não é artístico, te dá uma lógica, te dá uma ideia, te dá alguma coisa.


Então qualquer coisa que a gente venha a consumir enquanto informação cultural ou educacional, ela pode de alguma forma – e vai de alguma forma – parar na nossa fotografia. E o cérebro humano tem uma capacidade infinita de absorver, então tem que correr atrás mesmo. E eu acho que quanto mais cultura um fotógrafo tem, mais chance ele tem de ter um repertório rico ou ter um estilo que é diferenciado, porque ele consegue fazer misturas muito particulares.


Lá no começo da conversa a gente falava o que faz uma boa foto. Acho que…


Henry Milleo

Isso que eu ia falar agora, para a gente começar a chegar ao fim da conversa, a gente tentar responder o que faz uma foto ser boa.


Armando Vernaglia Jr.

Então assim, boa para quem é a primeira pergunta.


Boa para o seu cliente talvez seja a execução técnica perfeita. O cliente da publicidade, por exemplo, ele veio com aquela ideia e falando: olha, meu concorrente fez essa campanha, eu preciso fazer uma campanha para enfrentar essa com iguais armas. Tá bom, você vai fazer uma coisa parecida. E a execução, a técnica faz uma foto boa. Você foi para um evento fazer lá o casamento, a boa execução dessas fotos é que as pessoas possam olhar para aquilo e ter boas memórias.


A boa foto das nossas férias é aquela que evoca uma boa memória do que vivemos. Se você queria gerar sorrisos e a pessoa sorriu a foto é boa. Se você queria gerar uma lágrima e as pessoas choraram a foto é boa. A foto boa depende de objetivo. A foto é boa segundo, quais necessidades? Às vezes – existe inclusive uma pergunta que aluno sempre vem fazendo pra gente que: é professor, essa foto é boa? E eu tenho que devolver a pergunta pra ele falando: boa pra quê? O que você quer com ela?


Aí às vezes a pessoa não tem uma expectativa. Ela só queria saber se a bonita, se tá bonita ou não. E com o tempo as pessoas vão aumentando as expectativas. Quanto mais elas estudam fotografia, mas elas aprofundam a expectativa e a expectativa da gente, inclusive, aprofunda muito mais rápido que a nossa habilidade.


Então, às vezes a gente começa a ficar frustrado porque começa a achar que tudo o que a gente faz é uma porcaria, porque a nossa expectativa se torna muito grande com o nosso repertório e a gente produz algo que fala: putz, não atingi a expectativa. E é parte do processo ficar frustrado também. Mas eu penso que foto boa é a foto que atingiu algum objetivo, Seja esse objetivo qual for.


Se era passar uma mensagem e passou, se o objetivo era mostrar algo e mostrou, se o objetivo era… e atingiu.


Porque a gente pode pensar na arte abstrata, que é uma arte quase sem objetivos. Ela tem por missão que alguém fique curioso e interprete como a própria cabeça. Interpretar isso pode ser o seu objetivo na foto. Ou seja, não quero falar nada, eu só quero que a pessoa coce a cabeça enquanto está olhando isso aqui.


Henry Milleo

Tipo o Pollock.


Armando Vernaglia Jr.

Sim. E tudo bem, porque existe aquela história da arte ser generosa o suficiente para te entregar todos os significados. Então você está vendo algo e entendendo, ou a arte ser generosa o suficiente para te deixar pensar que você está não está entendendo nada. Por isso você está pensando e ganhou essa liberdade. Então a arte é sempre generosa, seja indo para um caminho ou para outro.


E aí a sua fotografia? Ela vai oferecer o quê para as pessoas? Eu não acredito que fotos mudem o mundo. Eu acredito que elas fazem parte de um mundo que talvez mude com múltiplas forças. Mas e a sua foto? Ela é qual força? Dentro dessa conversa você quer mudar o mundo?


Então você vai fazer um documentário mostrando uma realidade brutal que você quer que deixe de ser brutal. Você quer que o mundo melhore? Então vai fotografar a fome na região que você mora, porque isso tem que acabar. Não necessariamente a sua foto vai acabar com a fome, mas se é nessa direção que você está querendo empurrar, pelo menos você empurra na direção certa.


Henry Milleo

Mas a foto pode ser um dos vértices de uma mudança.


Armando Vernaglia Jr.

Exatamente. Se mais gente estiver empurrando na mesma direção que você, então você se junta num movimento para uma mudança.


Henry Milleo

Ou ela pode mudar o mundo de uma única pessoa. De repente, não o mundo, o mundo.


Armando Vernaglia Jr.

Eu gosto de contar a história do Nick Ut, fotógrafo vietnamita.


Henry Milleo

Da Naplam Girl.


Armando Vernaglia Jr.

Exatamente, que tem a famosa foto da menina queimada por napalm no bombardeio na Guerra do Vietnã e que é a última foto de guerra dele.


A carreira de fotógrafo de guerra do Nick Ut acaba naquele minuto ali. E o que pouca gente sabe e o que veio antes daquela foto… Porque assim, o Nick Ut tinha sido ferido. Ele tinha tomado um tiro no joelho e ele estava machucado ainda. Quando ele fez essa foto, ele ainda estava se recuperando com o fragmento de bala doendo na perna dele.


E aí você pensa: pô, já é difícil trabalhar nessas condições. E ele estava trabalhando ainda. Mas o que pouca gente sabe é que o irmão morreu naquela guerra, antes daquela foto. O irmão dele morreu e ele era também fotógrafo. E o equipamento com o qual o Nick Ut vai fotografar era o equipamento que do irmão dele.


Então você está fotografando uma guerra no seu país, o seu irmão já morreu ali, você já tomou um tiro ali. Por que você continua? Onde mais você quer chegar? E aquela vai ser a última foto de guerra dele. Acaba ali. Ele não consegue mais progredir depois daquela foto.

E ele vai ajudar aquela menina junto com outro agente internacional ali, outro agente de imprensa que estava perto dele. E eles vão usar as credenciais de imprensa dele para obrigar que ela seja tratada no hospital de campanha


Henry Milleo

Exército americano.


Armando Vernaglia Jr.

Exatamente. E acabam facilitando também com documentação a imigração dela para os Estados Unidos. Hoje ela trabalha na UNESCO, salvando vidas em áreas de conflito. Então, eles ajudaram a salvar uma vida e essa vida que eles salvaram salva vidas depois.


Não é que a foto mudou o mundo, mas o conjunto de coisas em volta dessa foto é tão gigantescamente forte que aí você tem mudanças no mundo em volta disso tudo. Então eu gosto de mostrar essa história da foto do Nick Ut, porque às vezes a gente vê uma foto de uma das muitas guerras desse mundo – porque se uma coisa que a gente não aprende é isso, a gente continua fazendo guerra – mas aquela pessoa chegou no limite dele naquela hora, acabou a carreira dele, ele virou paparazzi depois, nos Estados Unidos, fotografando celebridades, porque ele cumpriu a missão total dele ali, ele chegou no limite dele, cumpriu a missão dele.


Mas o quanto de coisas existem em volta daquela foto ou como aquela foto ajuda a mudar uma opinião pública nos Estados Unidos que vai se tornando mais contra a guerra depois da publicação dessa e de algumas outras imagens.


Aquela foto sozinha não acabou com a guerra. Não foi aquela foto sozinha que salvou aquela menina, mas ela faz parte de um contexto que envolve salvar aquela vida, que envolve acabar com aquela guerra, e assim por diante. É o conjunto de forças que foram naquela direção.


Henry Milleo

Sim, não é uma coisa sozinha, mas ela teve um peso grande naquele momento.

Eu lembro que eu vi uma entrevista do Nicki Ut certa vez. Ele era fixer. Ele era mais fixer do que fotógrafo, na verdade. Ele levava fotógrafos e o pessoal de imprensa pra lá e pra cá. E ele começou a fotografar porque que o irmão dele também fotografava, então, era um ofício a mais, uma grana extra...


Armando Vernaglia Jr.

Exato.


Henry Milleo

…acompanhando repórteres que chegavam sem o fotógrafo, como o Zé Hamilton Ribeiro, que era um repórter brasileiro que pisou em uma mina lá no Vietnã. Quem ajudou ele foi o fotógrafo dele, que na verdade era um japonês, porque ele foi só, não foi com um fotógrafo.


Tem uma coisa curiosa em relação a essa foto, inclusive você já viu ela inteira, sem corte? Porque ela tem um corte.


Se você olhar para frente, no canto direito da imagem tem um outro fotógrafo rebobinando o filme. Quer dizer, a cena acontecendo ali e o fotógrafo estava perdendo porque estava rebobinando o filme.


E se você pega uma foto dessas famosas – e acho que o Nick Ut nunca conseguiu fazer nada muito mais relevante depois disso – se bem que o que mais se podia fazer depois de fazer uma foto dessa desse tamanho, né? Mas ele teve uma carreira relativamente confortável na fotografia por conta dessa foto.


Mas enfim, se a gente for falar dessa foto… para fechar aqui, então – já que você disse que o que faz uma boa foto depende de quem está vendo a foto e do que o fotógrafo queria dizer – é uma pergunta bem pessoal: de que foto você gosta? Que foto você viu uma vez e você disse: eu gosto dessa foto, essa é uma boa foto.


Armando Vernaglia Jr.

São tantas que eu tenho uma certa dificuldade. Tem muitas fotos. Por exemplo, eu tenho uma foto que eu tenho uma conexão interessante que é uma foto do German Lorca, da Oca no Ibirapuera, quando Ibirapuera estava sendo construído ainda e o German Lorca fez uma foto ali que eu gosto bastante.


Tem fotos variadas aí do modernismo brasileiro, tem uma do José Valente que é uma moça e uma criança, ambas numa escadaria, e é isso. Tem uma foto do Alexander Rodchenko, também em uma escadaria. Uma mãe em uma escadaria em citação ao filme de Eisenstein, o Encouraçado Potemkin, que tem a clássica cena da escadaria de Odessa e o Rodchenko fez uma foto citando aquilo. Para mim aquele é um grande filme e aquela é uma grande foto. E as duas coisas se juntam.


Eu também tenho muitos enquadramentos de filmes que para mim são grandes fotos, então eu gosto muito do Stanley Kubrick. Ele tem alguns enquadramentos que eu memorizei assim como grandes fotos, então tem uma sequência. Uma vez eu vi uma exposição de um fotógrafo russo chamado Vladimir Lagrange no Memorial da América Latina, aqui em São Paulo.


Ninguém conhece, ninguém fala dele. E foi um momento em que eu gostei de tudo o que eu vi ali. Era um espetáculo visual. Depois fui ver que o cara era conhecido como uma espécie de Henri Cartier-Bresson do mundo soviético. Então tem tantas imagens.


A famosa foto do Cartier-Bresson, do sujeito pulando a poça d'água. Tem tantas fotos que foram fazendo parte da minha vida e que eu me lembro delas que é difícil eu parar e falar assim: a partir de tal foto eu tenho uma memória de que esta foi simbólica e eu tenho esse entendimento.


É um conjunto grande de coisas ao longo da vida que eu não tenho um ponto de partida para isso. Em saber que momento eu parei para prestar atenção.


Henry Milleo

Bem, eu acho que a gente chegou ao fim, mas deixa eu dizer as minhas boas fotos aqui também.


E eu também tenho muitas fotos, mas tem duas que eu gosto muito, uma é de um fotógrafo russo chamado Antanas Sutkus, que é um retrato. É só um retrato de um menino cego. Ele está sozinho, com um paletó bem puído, porque o Sutkus fotografava por trás da cortina de ferro soviética, tanto que o trabalho dele foi ser realmente conhecido só depois que o muro caiu, assim como aconteceu com outros artistas de outras áreas e de outros fotógrafos.

E é um retrato simples, mas justamente porque eu acho que essa simplicidade é grandiosa na fotografia.


E a outra é uma foto – que eu costumo achar às vezes quando eu estou pensando sozinho – que foi a foto que me fez querer ser fotógrafo. Quando eu era moleque a minha avó – pelo lado da minha mãe, que era de família alemã, e alemão tem mania de guardar tudo.


A minha avó guardava umas revistas que ela recebia de fora do país e ela guardava em sacos de arroz vazios, em uma prateleira que ela tinha de madeira atrás da porta do quarto dela.


E eu sempre ia lá fuçar, e como eu era pequeno, as prateleiras que eu alcançava eram as mais baixas, que eram onde estavam essas revistas. E uma revista que eu não lembro o nome nem nada, mas ela trazia – depois eu fui saber que era esse o nome – aquela série do Marc Riboud que ele fotografou na Ásia. Na China, e no Vietnã.


É uma foto que o quadro está cheio de pessoas. Ele fotografou em uma vila no Vietnã e está todo mundo olhando diretamente para a lente, porque era a primeira vez que eles viam um ocidental. Então tem um monte de criança e tem os adultos mais ao fundo, todo mundo te encarando enquanto você olha a foto.


E depois teve uma exposição do Marc Riboud no Museu Oscar Niemeyer, lá em Curitiba, e eu fui oito vezes ver a exposição. As últimas seis eu fui só para ver essa foto. Eu parava na frente desta foto. Até hoje ela mexe muito comigo. Então essas duas fotos eu acho fantásticas.


E se eu for falar em conjunto de fotografia eu gosto muito do material do Robert Frank. Eu acho que ele não tem uma single shot que você olha e fala: essa foto é legal. Mas o conjunto dos trabalhos deles, dos projetos que ele fazia, funcionavam todos como se fossem uma só grande imagem de algo. Então eu acho que a força dele era essa. Essas eu acho boas fotos.


Eu vou tentar deixar essas fotos no Instagram do Arquivo Raw para vocês darem uma olhada.


Se você quiser me mandar uma ou duas dessas fotos para colocar lá, eu coloco as minhas duas também.


E é isso, eu queria te agradecer, Vernaglia, por participar aqui. A gente ficou falando aí por uma hora e meia, uma hora e quarenta, foi um papo bacana. Tinha mais coisa para falar, mas senão a gente se alonga e isso daqui vira um reality show.


E eu vou deixar também as redes do Vernaglia na descrição aqui do episódio para vocês acompanharem o canal do YouTube, tem o site também, o Instagram… Então tudo isso vai estar à disposição para vocês.


Mais uma vez, obrigado. As portas estão sempre abertas, a hora que você quiser é só dar uma batidinha e a gente volta e grava de novo mais alguma coisa, porque o papo sempre rende.


Armando Vernaglia Jr.

Maravilha! Vamos fazer, sim. Muito obrigado pelo convite, foi um prazer.


Henry Milleo

Valeu! E para vocês pessoal, um abraço., até a próxima. Ciao!



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