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Ep. 01 - A simplicidade na fotografia


 

Para começar essa nova temporada e nova fase do Arquivo Raw, eu busquei lá no Henri Cartier-Bresson a inspiração para falar da geometria da composição na fotografia.

Aqui você pode acompanhar o roteiro desse episódio.




Podcast de fotografia sobre Henri Cartier-Bresson




Roteiro

Temporada: 003

Episódio: 001

Gravação: Henry Milleo

Locução: Henry Milleo


<FADE IN

ENTRA MÚSICA

MÚSICA DESCE>


Olá pessoal, esse aqui é o Arquivo Raw, um podcast para falar sobre fotografia.

Meu nome é Henry Milleo, eu sou fotógrafo e editor de fotografia, e também sou o host dessa coisa toda aqui.


E essa é a terceira temporada - e a nova fase do Arquivo Raw - então eu queria fazer as coisas de uma forma um pouco diferente. Tratar os assuntos de forma diferente.

Por isso eu queria dizer que a gente vai continuar falando sobre fotografia e vamos falar sobre outros assuntos também, mas sempre relacionado ao ato de fotografar ou de pensar a fotografia, ok?


Mas vamos lá, vamos ao episódio.


<ENCERRA MÚSICA E ENTRA VINHETA

ENCERRA VINHETA E MÚSICA VOLTA>


Esses dias eu estava vendo algumas coisas sobre fotografia, até para pensar em alguns temas para a gente conversar aqui, e eu acabei caindo em uma entrevista que o Cartier-Bresson deu para o jornalista Charlie Rose, lá em Julho de 2000, na época da abertura de uma exposição dele em Paris, e antes dessa entrevista, antes da entrevista com o Bresson, tinha uma entrevista prévia, que era com o Richard Avedon, que ele disse isso aqui:


<ENTRA ÁUDIO ENTREVISTA COM RICHARD AVEDON


“He shows the moving of history, the movements of history. He was in China, he was in India, he was everywhere that marked the movement of the 20th century. I'm in awe of him. I'm absolutely in awe of him. Everybody's a cartier-bresson baby!”


ENCERRA ÁUDIO ENTREVISTA COM RICHARD AVEDON>


Basicamente ele falou que o Bresson estava em todos os lugares, mas no final ele fala.

Abre aspas: Todo mundo é filho de Cartier-Bresson. Fecha aspas.


E eu me toquei que fazia um bom tempo que eu não pensava no Bresson. Assim, não pensava diretamente nele ou no trabalho dele. Porque quando eu comecei a fotografar ele era uma das minhas grandes referências. Até porque eu comecei direto no fotojornalismo e ele é considerado por muitos como pai do fotojornalismo moderno, esteve em alguns dos principais acontecimentos do século 20, é considerado um dos maiores, senão o maior fotógrafo do século 20.


Então tanto na faculdade quanto no jornal, no departamento de fotografia do jornal, o pessoal falava bastante do Bresson.


Daí surgiu essa ideia, para esse primeiro episódio, de voltar nesse início - que não é necessariamente o início de algo -, mas tem essa marcação, esse pin ali na linha do tempo da fotografia destacando o Bresson.


E é lá no meu início na fotografia.


E pensei: ok. Parece bom. E comecei a pesquisar um pouco mais para me aprofundar, até porque uma coisa é você conhecer a obra como consumidor dela e outra é você falar sobre ela ou sobre o autor. A gente acha que sabe, mas no fim você sempre tem que buscar informação – até porque vocês não acharam que eu só sentava aqui na frente do microfone e falava o que me vinha na cabeça, não é? - Não. Eu faço toda uma pesquisa, escrevo um roteiro e tudo o mais. Coisa profissional.


E eu lembro que na época que eu comecei a ver o material dele, buscando uma influência como o jovem fotógrafo que eu era, que tinha alguma coisa que me atraía na fotografia dele, que não era necessariamente o assunto que estava ali, ou ao menos não era só o assunto.


Era algo que ficava submerso, digamos assim, que não estava escancarado, apesar de estar visível.


E eu lembro que na época que eu comecei a ver o material dele, buscando uma influência como o jovem fotógrafo que eu era, que tinha alguma coisa que me atraía na fotografia dele, que não era necessariamente o assunto que estava ali, ou ao menos não era só o assunto.


Era algo que ficava submerso, digamos assim, que não estava escancarado, apesar de estar visível.


Então eu comecei a conversar com alguns colegas fotógrafos - gente da velha guarda, fotógrafo raiz - sobre o que eles achavam do Bresson e um deles me disse isso daqui - e eu vou ler a mensagem para vocês. Abre aspas:


“A fotografia do Bresson é bem básica. Nem o instante decisivo foi ele que formulou. Muitos já fotografavam assim.


E finalizou com isso: Eu arriscaria dizer que a mágica do Bresson foi fazer uma fotografia simples, direta. Fruto de um olhar bem amador e despretensioso. Algo que, paradoxalmente, é a busca de todo fotógrafo”. Fecha aspas.


E tem duas coisas nesse comentário que me interessaram.


A primeira delas é sobre o instante decisivo. Todo fotógrafo, antes ou depois do Bresson, escolhe o momento de disparar. Se é um profissional de fotojornalismo, fotografia de rua ou eventos, a busca por aquele momento único é constante. Mas a fotografia tem dois lados. O do fotógrafo que escolheu aquele momento e o do público que vai olhar a foto. E tanto quem dispara quanto quem faz a leitura da imagem precisa ter bagagem para fazer isso. E essa bagagem é plural.


Desse modo, o instante decisivo de quem observa nem sempre é o mesmo de quem dispara, e por isso ele pode ser questionado.


Vamos pegar como exemplo a foto famosa do Bresson, do homem saltando sobre uma poça de água nos fundos da Gare Saint Lazare, em Paris:


A foto mostra um homem, com um leve movimento. É como se fosse uma sombra, um vulto negro, com seu reflexo espelhado na água abaixo dele.


Ele está no ar, saltando de uma escada que foi convertida em ponte improvisada e está com a perna esticada e a ponta do pé levantada.


E é ali, naquele pequeno centímetro entre a superfície da água e o salto do seu sapato que Bresson encontrou o que para ele seria o instante decisivo daquele momento.

Mas e se o disparo fosse feito no instante seguinte, quando o salto do sapato já houvesse tocado a água, com gotas pulando? Com a ponta do pé ainda levantada? Não seria esse também um instante decisivo?


O fato é que sim. O tal do instante decisivo sempre existiu.


Kertész era mestre em fazer isso, e em fazer isso em três planos na mesma imagem - o que para mim converte ele instantaneamente em um dos caras mais fodas da fotografia – mas talvez o que aconteceu é que o Bresson só tenha dado um nome para isso.


Tenha parado para pensar sobre isso, formulado uma teoria e pronto. A partir disso muitos estudiosos, historiadores e acadêmicos começaram a se aprofundar no tema. Aliás, O próprio Bresson citava Kertész - o cara dos múltiplos instantes decisivos em uma única foto - como a sua grande influência na fotografia.


Mas, isso é algo para cada um filosofar por conta própria e daria uma discussão infindável.


Eu, por minha vez, sempre fui mais adepto do instante contínuo do que do decisivo, mas isso também é papo para outro episódio, então vamos em frente.


A segunda coisa que me chamou a atenção na resposta - e a mais importante - foi que a fotografia do Bresson é simples e que, invariavelmente, isso é o que todo fotógrafo busca.


E foi aqui que eu percebi – tardiamente, eu sei, mas esse foi o meu ritmo – que era exatamente isso que me atraia quando eu via o material dele. Aquele elemento submerso era nada mais nada menos que simplicidade.


Algo que eu conseguia ver de forma muito mais escancarada no material do Marc Riboud, por exemplo, e também escancarada, mas mais visualmente suja – e aqui uma grande aspas nesse visualmente suja – no material do Robert Frank.


Geralmente o que nos atrai a atenção em uma primeira olhada em uma foto, é o ponto de interesse principal. Aquilo que está em foco, que é o objetivo do fotógrafo em mostrar. A personagem da imagem.


Mas se você olhar o trabalho do Bresson para além disso - coisa que todo fotógrafo deveria fazer: olhar os mínimos detalhes e ser capaz de entender uma fotografia - você vai perceber que o que sustenta a composição é o cenário e suas linhas de fuga. A geometria da imagem.


E isso fica mais evidente se você comparar as fotos de rua com os retratos que ele fez.


Aliás, tem um livro de retratos dele que se chama Tète-a-tète, que se você encontrar em um sebo por aí é uma ótima aquisição para a sua biblioteca fotográfica.


Alguns personagens dos retratos, mesmo os posados, têm seus pés cortados do quadro, outros estão enquadrados no canto, olhando para fora da imagem. Em outras fotos há muito espaço acima da cabeça do fotografado. Mas se olhar o que há no quadro todo, vai perceber que a preocupação era com a geometria da composição do cenário e não com a personagem.


Talvez essa constância em usar linhas de fuga venha do fato dele ter sido desenhista além de ser fotógrafo?


Na entrevista que ele deu para o Charlie Rose, o jornalista perguntou o que ele achava de ser considerado o maior fotógrafo do século, e ele respondeu:


Abre aspas:

- Eu não sou fotógrafo. Eu só carrego uma câmera e uso ela às vezes, porque fotografar é mais rápido que desenhar. Fecha aspas.


Outra coisa era essa afirmação de não ser fotógrafo, de estar mais preocupado com a composição do que com a foto em si. Ou seja: com o ato de fotografar e não com o resultado, a ampliação, a publicação. Talvez seja daí que vem essa simplicidade. Da concentração na hora de compor, no estar presente naquele momento.


Enfim, por mais que os tutoriais do YouTube ou os influencers do Tik Tok digam, não há uma receita de bolo para se fazer uma boa fotografia. Comprar uma câmera, ou pegar o celular hoje, assistir um video e se tornar um Bresson, não funciona.


No máximo você vai fazer uma foto que você - e alguns outros - vão achar boa, mas que se você prestar atenção, outros 2 milhões já fizeram igual, provavelmente replicando aquele mesmo tutorial que você viu.


É preciso aprender a ler uma foto e cultivar o hábito de enxergar as coisas além do primeiro plano.


O conhecimento técnico do equipamento é fundamental, mas a sensibilidade precisa ser nutrida para chegar ao ponto de ser simples, sem nada faltando ou sobrando na fotografia.

Então tome um tempo para exercitar isso. Faça como eu. Volte lá e reencontre essas referências. Sempre é bom beber na fonte da simplicidade.


<SOBE MÚSICA

DESCE MÚSICA>


E é isso pessoal.

Comente dizendo o que achou desse episódio e deixe a sua indicação de tema para os próximos.


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<SOBE MÚSICA

DESCE MÚSICA>


Esse episódio usou trilha do Podcast.co e áudio do canal do Charlie Rose no YouTube.


Até a próxima semana. Fiquem bem. Ciao!


<SOBE MÚSICA

FADE OUT

ENCERRA>



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