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Ep. 20 - Retrato


 

No último episódio da quarta temporada do podcast o tema é aquela que eu considero uma das formas de fotografia mais bonitas e mais desafiadoras: o retrato.


O retrato na fotografia

Roteiro

Temporada: 004

Episódio: 020

Gravação: Henry Milleo

Locução: Henry Milleo



<SOBE MÚSICA

DESCE MÚSICA>



Olá pessoal, sejam bem-vindos a mais um episódio do Arquivo Raw, um podcast para falar de fotografia.

Eu sou Henry Milleo, sou retratista, editor de fotografia e também host dessa coisa toda aqui.


E esse episódio, que é o episódio de número 20, também é o último dessa quarta temporada.


Desde que eu resolvi trazer o Arquivo Raw de volta, nesse formato de solocast, eu já havia decidido que cada temporada teria 10 episódios.


Como eu já disse eu não vivo de podcast, esse daqui é só um dos projetos que eu tenho, então eu sei que vocês entendem que eu preciso parar por um tempo para organizar as coisas.


E 10 episódios podem não parecer muito, mas é o que eu consigo fazer hoje sem comprometer meus trabalhos e projetos e sem comprometer a qualidade dos episódios também.


Dá trabalho produzir esse conteúdo aqui, porque além da escolha de temas, das pesquisas e criação dos roteiros, da gravação e edição – isso quando não tem gravação de bate-papo, que precisa fazer contato, ajustar agenda etc – além de tudo isso, eu ainda faço as transcrições dos roteiros – imagina como é transcrever uma entrevista de mais de uma hora –, os textos para o site e vídeos e posts para o Instagram, além das artes para todo conteúdo.


É por isso que eu preciso parar por um tempo, para começar a pensar e produzir tudo para a próxima temporada.


E é por isso que a sua ajuda é importante. Se cada um colaborar um pouco é possível manter esse podcast no ar e, quem sabe, até ampliar isso daqui.


Então, se você gosta desse podcast e curte o conteúdo, você pode ajudar a manter o Arquivo Raw no ar.

É simples e não toma muito esforço.


Uma das formas de fazer isso é comprando um dos meus fotozines. Você pode conferir os títulos no Instagram do Arquivo Raw – @arquivo_raw. Os títulos estão fixados em um stories. Então visite lá, mande uma mensagem e adquira o seu.


Outra forma de ajudar é ouvindo os episódios na Orelo, no orelo.cc/arquivoraw. A Orelo remunera os produtores de conteúdo por episódio ouvido na plataforma deles. Não é muito, é coisa de centavos, mas já ajuda.


Você também ajuda compartilhando os episódios em suas redes sociais e indicando para aquele seu amigo ou conhecido que você sabe que se interessa pelo tema e classificando o podcast no seu tocador preferido – cinco estrelas seria ótimo.


Quanto mais o número de ouvintes cresce, mais o podcast tem força para buscar um patrocínio e assim é possível investir em episódios cada vez melhores.


E é claro que você também pode contribuir diretamente, fazendo um pix com qualquer valor para a chave arqraw@gmail.com. Chave essa que também está na descrição desse episódio.


E eu quero finalizar os recados agradecendo a você que acompanhou essa temporada. Muitíssimo obrigado.


E também a quem respondeu a pesquisa sobre o podcast. Vocês são ótimos.


E se você ainda não respondeu, ainda dá tempo, basta seguir o link que está aqui na descrição do episódio e na bio do Instagram.


É uma pesquisa rápida, não toma muito tempo, mas já ajuda para eu saber qual o rumo que o podcast vai tomar.


E é isso. Recados dados, vamos para a vinheta e para o episódio.


<ENCERRA MÚSICA E ENTRA VINHETA

ENCERRA VINHETA E VOLTA SEM MÚSICA>


Para esse último episódio da temporada o tema é Retrato - que é um dos meus estilos preferidos de fotografia.


Eu gosto de retratos. Gosto de observar retratos e, principalmente, de fazer retratos.


Gosto tanto de retratos que eu tenho um Instagram só de retratos, que é @milleofotografia.


Eu acho que o retrato é um dos tipos mais bonitos e também mais ambiciosos quando se trata de fotografia.


Porque ele pode parecer simples, mas não é.


Existem dois tipos de retratos – vai lá, existem mais, mas para fins de ajustar aqui ao episódio, vou reduzir para dois.


Um deles é o retrato comum. Retrato comercial. Aquele que você faz de um cliente durante um ensaio, ou mesmo que faz para um empresário, um advogado, um político, um autor que vai usar isso em um site, uma rede social, em divulgação, na orelha de um livro ou no linkedin, enfim… esses retratos comerciais mesmo.


Para esse tipo de retrato você precisa ter algumas habilidades. A principal delas é saber trabalhar com a luz.


Tem a luz principal, a de preenchimento, a de recorte, a luz contra… depende do tipo de resultado que você quer, se é mais sóbria, mais iluminada ou se é mais soturna, mais carregada de sombras. Tem luz para todo tipo e todo gosto.


A segunda habilidade que você precisa é a composição. Se vai ser uma foto ambientada em um cenário - externo ou interno - ou se vai ter um fundo neutro, texturizado ou o clássico monocromático, que pode ser branco, preto ou cinza.


Se o ambiente vai ter destaque, vai fazer parte da imagem em uma porcentagem de atenção maior, ou se você vai isolar o personagem do fundo, se vai usar um diafragma mais aberto para recortar ele… tudo isso.


Aí entra a questão de combinar o contraste do personagem, da roupa que ele usa, com o fundo.


Se vai ser opositor, para destacar quem você estava fotografando, se vai ser complementar, para criar uma ilusão de luz mais contínua na imagem toda… Como eu disse: tem para todo tipo e gosto.


Atrelado a isso tem a direção do modelo – que para mim é a parte mais difícil. Aquele esquema de bota esse braço aqui, faz assim com a mão, vira o rosto para lá, baixa um pouco o queixo, olha para o lado etc. e tal.


Tem até fotógrafo que já sai de casa com uma cartelinha de poses debaixo do braço. O que pode ser bom para ir soltando o modelo porque, convenhamos: para um fotógrafo fazer um ensaio é só mais um ensaio, mas para quem está sendo fotografado isso é algo que não acontece todo dia, então tem um certo desconforto.


Então esse é um passo a passo bem raso do que é uma sessão de retratos.


Mas, tem outro tipo de retrato que é bem mais interessante e, claro, bem mais difícil. Que é o retrato com uma pegada mais profunda. Uma concepção mais artística da coisa.


Porque fazer um retrato pode parecer simples, afinal das contas é só a foto de uma pessoa.


Você coloca ela em frente a câmera, ajusta a luz, dirige a pose, ajusta a composição e dispara.


E eu concordo que é simples (e aqui muitas aspas nesse simples), se você trabalha com essa visão comercial da fotografia – e aqui eu não estou dizendo que você não deva ter uma visão comercial da fotografia. É só que nesse podcast eu gosto de pensar a fotografia para além do fotógrafo técnico, principalmente quando se trata de retrato.


Porque para mim, para além das habilidades que eu já citei, é necessário também um toque humano.


Há quem diga que o retrato é uma representação de uma pessoa que vai além apenas da aparência física, que ele precisa trazer a essência do personagem. E eu concordo com isso, mas concordo em partes.


Porque, afinal de contas, quanto tempo leva para você conhecer uma pessoa? Conhecer a ponto de poder fotografá-la de um modo que toda a sua essência esteja ali?


Faça esse exercício. Pense em quantas pessoas na sua vida você realmente conhece a ponto de saber exatamente quem ela é?


Mas eu acho que é possível – e até indispensável quando se trata de ser um retratista – você captar uma parte que seja dessa essência. Uma representação de um momento.


Não é a imortalização de alguém, mas a imortalização de uma parte de alguém. Afinal, nós não somos uma coisa só, somos plurais.


Por isso que para mim o retrato é como um diálogo entre fotógrafo e fotografado. É o resultado de um momento de conversa entre duas pessoas. E o tema, as impressões que você tem dessa conversa é que estarão no retrato.


Por exemplo: eu já fotografei um escritor famoso, que tinha uma biblioteca gigante em sua casa, mas que durante a conversa com ele, durante essa troca, eu percebi que o cenário biblioteca não tinha absolutamente nada a ver com ele.


Muita gente pode pensar que por ser escritor o normal seria mergulhar o personagem em livros – e eu concordo que essa é uma boa foto oficial para um post de Instagram da vida, mas um escritor é, na verdade, um observador e um contador de histórias, e histórias acontecem fora das bibliotecas. Os livros são resguardos de histórias que aconteceram fora dali. Então um cronista do mundo pertence ao mundo, a rua. Esse é o cenário dele.


Mas ao mesmo tempo – para vocês verem como não é coisa simples pensar um retrato – a composição com o cenário também é relativa, porque é claro que o cenário importa, mas importa menos que o personagem. Nada é fácil no retrato quando você pensa seriamente nele.


A vantagem de você ter alguém que vai ser fotografado em um ambiente que ele reconhece como seu é justamente isso. Ele se reconhecer ali.


E esse se reconhecer ali pode partir de uma série de outras condições. Em um estúdio, por exemplo. Uma roupa, um adereço, um acessório pode ser a diferença entre a personagem estar confortável ou não em frente a câmera.


Colocando as coisas assim, uma fotografia 3x4 pode ser muito mais interessante visualmente do que uma superprodução.


Veja as fotos do Martin Schoeller, por exemplo. Todos retratos bem fechados no rosto, com pouca profundidade de campo, fundo neutro, luz homogênea e foco fino na parte frontal do rosto que destaca olho, nariz e boca. E não precisa mais que isso para destacar o que ele quer naquele personagem.


Outro grande retratista que é bacana você conferir o trabalho, é o armênio Yousuf Karsh.


Ele fez um retrato do Winston Churchill, em 1941, durante a segunda guerra mundial, que apesar de mostrar somente o Churchill de pé, com uma mão apoiada no encosto de uma cadeira e outra na cintura (naquela tradicional pose chaleira) era carregado de simbologia.


Na foto Churchill tem um olhar determinado, mira diretamente para a lente. A luz é baixa, criando uma vinheta ao seu redor. E ele não estava com seu tradicional charuto - uma das coisas que ele mais apreciava.


A ausência do charuto criou a leitura de que ele abria mão de tudo que podia ser um prazer pessoal em nome de um bem comum maior, que era vencer a guerra.


No site do Yousuf Karsh, ao lado desse retrato está escrito: “O retrato do Winston Churchill mudou minha vida. Assim que eu disparei a câmera eu sabia que eu havia feito uma fotografia importante”.


E foi importante. É uma das fotografias mais reproduzidas da história.


Mas o quanto da pessoa está ali? O quanto aquela imagem reflete quem ela é?


Um retrato é, em grande parte das vezes, mais do que só uma fotografia de uma pessoa. É o estilo de fotografia que mais carrega emoções. A foto do Churchill é um apelo, um chamado à resistência.


E mesmo trazendo para um ambiente menor, um retrato carrega algum tipo de emoção. A foto de um pai, uma mãe, um filho, um parente distante, um amigo, alguém que já se foi.


São diferentes de uma foto de paisagem, ou de um lugar bonito, ou de uma tragédia. Elas carregam um tipo de sentimento que está enraizado de forma mais profunda na gente.


Eu vou contar aqui uma história:


Eu trabalhava na sucursal do interior de um jornal que tinha sede na capital, e eu cobria quase 100 municípios aqui no estado do Paraná. Isso há mais de 10 anos. Tempo pra caramba.


Mas uma das pautas que eu fui cobrir, lá no início dos anos 2000, era em uma cidade ainda menor, que tinha o menor índice de IDH do estado. IDH é o Índice de Desenvolvimento Humano, que é baseado em três fatores que são saúde, educação e renda.


Então essa cidade era a que tinha o menor índice, o que quer dizer que faltava todo tipo de coisa por lá.


Esse tipo de cobertura é um pouco mais burocrática, você escuta o prefeito, os secretários e vereadores e, para humanizar a reportagem, vai atrás de um personagem. Que foi o que nós fizemos – nós aqui éramos eu e a repórter.


E andando por uma parte da cidade que tinha ruas sem pavimentação, a gente viu um senhor, com seus mais de 70 anos, muito magro, sentado na varanda de uma casa de madeira. E resolvemos chegar para conversar com ele.


Papo vai, papo vem, a esposa dele apareceu na porta – uma senhorinha muito simpática – e nos convidou para entrar.


Quando eu entrei, eu vi que na parede da sala tinham algumas imagens de santo, um calendário e no meio de tudo, um porta-retratos pequeno, 10 por 15, com uma moldura dourada trabalhada com filigranas, e a foto de uma menina de uns 5 anos, loirinha, sorrindo.


Perguntei quem era e eles meio encabulados contaram que a filha deles tinha se casado e mudado para Curitiba. E que ela tinha ficado grávida e dado a luz a uma menina. Só que a filha e o marido não ganhavam muito nos empregos, então já fazia alguns anos que eles não se encontravam, e nunca tinham conhecido a neta.


Aí um dia eles estavam no centro da cidade e viram essa moldura em uma loja de presentes e compraram. E a foto ali é aquela foto que vem com o porta-retratos quando você compra nessas lojas, e eles faziam de conta que aquela menina era a neta deles, que eles nunca conheceram.


Para mim essa é a síntese da força de um retrato. Essa é a importância da fotografia e do retrato. É muito maior do que a gente imagina.


<SOBE MÚSICA

DESCE MÚSICA>


E é isso. Eu vou ficando por aqui.


E lá no site do Arquivo Raw tem um texto sobre retrato com algumas dicas para quem se interessa em adentrar nesse universo da fotografia, então confira lá.


E continue acompanhando o Arquivo Raw no Instagram, porque nesse intervalo de temporada eu vou continuar postando conteúdo lá.


E em breve eu estou de volta.

<SOBE MÚSICA

DESCE MÚSICA>


Esse podcast teve trilha do podcast.co

Fiquem bem, até a próxima. Ciao!


<SOBE MÚSICA

FADE OUT

ENCERRA>


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