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Ep. 21 - Cobertura de Guerra


 

Para falar sobre cobertura em áreas de conflito eu recebo o premiado fotojornalista Joel Silva, que recentemente lançou um documentário contando a sua história.



Fotojornalismo de guerra




Roteiro

Temporada: 005

Episódio: 021

Gravação: Henry Milleo

Locução: Henry Milleo

Convidado: Joel Silva


<FADE IN

ENTRA MÚSICA

MÚSICA DESCE>


Olá pessoal.


Estamos começando mais um episódio do Arquivo Raw, um podcast para falar de fotografia.


Eu sou Henry Milleo, sou fotógrafo, editor de fotografia e host disso tudo aqui.


E esse era para ser o episódio de número 21 e também o primeiro da quinta temporada do Arquivo Raw, mas algumas coisas aconteceram.


Eu me envolvi em um projeto que ocupou todo o meu tempo livre - todo o tempo que eu tinha para dedicar para o podcast - e por isso eu vou ter que adiar esse retorno do Arquivo Raw, o que eu confesso que me deixa muito triste, porque eu já havia planejado algumas mudanças para o podcast, com a compra de um novo equipamento de captação e também o investimento lá no site, que agora é  arquivorawpodcas.com.br.


E tudo isso só foi possível com a ajuda dos ouvintes que  adquiriram os meus fotozines.


O site teria, inclusive, uma loja para venda dos produtos do Arquivo Raw, além de cursos e workshops de fotografia. Mas tudo isso vai ter que esperar um pouco mais para acontecer.


De qualquer forma eu não poderia deixar de postar aqui esse episódio - que já estava pronto para ir ao ar - e que é um bate papo bem bacana com o Joel Silva, fotojornalista que cobriu várias áreas de conflito e também algumas guerras e que lançou recentemente o documentário "Todas as guerras que eu vi", que está disponível nesse link no Youtube.


Então, sem mais delongas, vamos para o episódio.



<ENCERRA MÚSICA E ENTRA VINHETA

ENCERRA VINHETA>



Henry Milleo

Então pessoal, como eu falei, a gente vai falar sobre fotografia de conflito - fotojornalismo em cobertura de áreas de conflito ou em situações de conflito - e eu trouxe para conversar aqui comigo o Joel Silva, que é um fotógrafo fantástico. Inclusive, eu já queria começar agradecendo a ele por ter aceitado o convite para participar aqui.


E como de praxe, eu sempre jogo o cara na fogueira, então eu vou pedir para o Joel se apresentar. Diz aí, quem é você. Dá a tua carteirada.


Joel Silva

Oi pessoal, Obrigado. Obrigado pelo convite. É sempre um prazer falar do nosso trabalho.


Meu nome é Joel Silva, como o Henry falou. Eu tenho 27 anos de profissão, 27 anos trabalhando na Folha de São Paulo e eu me especializei, acidentalmente, em coberturas de zona de conflito.


Eu já ganhei cinco prêmios de direitos humanos, sendo um deles pela ONU. Um prêmio em comemoração aos 60 anos dos direitos humanos da ONU.


E eu já cobri conflitos na América Central, na Colômbia, na África e fui correspondente da Folha no Oriente Médio, morando em Jerusalém, antes de ser correspondente e cobrir o o conflito na Líbia - a Primavera Árabe.


E depois, como correspondente, eu cobri o massacre no Cairo, onde 800 pessoas morreram, e na Faixa de Gaza, que ainda ainda é recorrente o conflito lá.


Henry Milleo

Lá não acaba nunca. Lá sempre tem, não é?


Joel Silva

No meu documentário eu falo um pouco sobre essa questão. Lá nunca haverá paz. É difícil saber ou prever quando haverá paz no Oriente Médio. Ali é uma seção sensível.


Henry Milleo

Inclusive, como você falou do documentário, vamos falar para o pessoal aqui. Tem um documentário com a história do Joel. Está no YouTube e eu vou deixar o link para ele aqui na descrição do episódio e também lá na transcrição desse episódio, no site do Arquivo Raw, que é arquivorawpodcast.com.br.


Então vocês podem conferir lá. E, por favor, depois que vocês assistirem, deixem o joinha lá no YouTube e mande um comentário dizendo pro Joel o que vocês acharam. A participação é importante porque assim o documentário chega a mais pessoas. Mas vamos lá, Joel, você disse que você entrou nesse “nicho” de cobertura de conflito, quase acidentalmente. Como é esse “acidentalmente”? Como que alguém chega de forma acidental a cobrir conflito, a cobrir guerras?




Joel Silva

Bom, meu sonho como fotógrafo era de ser fotógrafo de esportes. Queria cobrir Copa do Mundo, Olimpíadas, essas coisas. Porém, eu fui trabalhar no jornal Notícias Populares, que é um jornal que era da Folha de São Paulo, mas que tratava de assuntos bem populares.


Era um jornal bem popular, tratava de questões sociais e homicídios, violência urbana. Toda essa questão.


Henry Milleo

Era o espreme sai sangue.


Joel Silva

Exatamente. É, mas em contato com essa violência, essa experiência, que eu trato como submundo… Eu escrevi um livro chamado: “Uma fresta de luz no porão da sociedade”, que trata disso. O nosso porão social.


E aí, em contato com isso e produzindo cenas de homicídios na periferia de São Paulo, eu comecei a perceber que existe um outro mundo que eu não conhecia.


Olha que incrível isso. A gente é fotógrafo e tal, mas eu não conhecia esse lado da sociedade, esse lado obscuro de violência, drogas e tudo mais. E em uma dessas noites, aliás, numa dessas, não. A primeira vez que eu fui cobrir um homicídio na periferia de São Paulo, eu me deparei com uma cena - e eu falo disso no documentário - era uma cena inusitada. Um jovem estirado no chão, iluminado pelas lanternas dos policiais, com a perícia em volta, porque a rua estava sem energia.


E eu identifiquei ali uma cena maravilhosa no sentido fotográfico, de primeira página, aquela coisa que a gente sempre busca.


E aí tinha uma senhora do lado, bem em frente ao corpo, sentado na sarjeta, muito magra, triste, com um lenço na cabeça. E aí eu fui pesquisar para saber quem era aquela mulher antes de fazer a primeira foto - correndo o risco de perder aquela cena - e eu descobri que era a avó do menino. Enfim, aí tem toda uma história que está lá no documentário.


E essa senhora eu acho que… é uma daquelas coisas que a gente como fotógrafo, eu acho que o fotógrafo ele tem essa questão, ele é o olho do mundo, ele é o olhar do mundo, ele é a janela do mundo.


Então ela me provocou uma questão ética que eu levei ao editor do jornal no dia seguinte e ele falou: “Joel, é para isso que você tem que olhar”. E aí eu comecei a trocar - porque eu fazia muito futebol - os campos de futebol pelos homicídios da periferia. E aí um homicídio leva a outro, porque você tem que começar a se aprofundar nas questões que você está trabalhando e no final do documentário eu falo sobre isso: você tem que ter um propósito como fotógrafo.


E aí eu fui vendo e fui descobrindo que a violência vem basicamente das drogas e as drogas vêm da Colômbia, então eu fui para a Colômbia, acampei com a guerrilha das FARC na Colômbia. E aí uma coisa vai puxando a outra e quando eu vi eu estava na Primavera Árabe, no Oriente Médio, no Sudão, na África…



E a ideia de lançar o documentário foi justamente para dar uma uma linha do tempo nisso tudo, cronologicamente falando, o porquê de um fotógrafo muitas vezes se colocar nesse tipo de cobertura, né?


Muitas vezes… olha, eu vou falar uma coisa. As pessoas dizem: “você é muito corajoso”. Uma das coisas que eu mais sou é medroso, eu sou muito medroso. Mas aí a profissão, ela te puxa, e aí ia me puxando e eu só aceitei.


Aí fui fazendo, fui cobrindo, fui correndo, fui me envolvendo com essa questão da violência, porque não é só guerra. É isso que a gente estava conversando antes. Não é só guerra, é violência urbana, é a catarse popular, é essa coisa, a sociedade em crise, eu acho, a nossa sociedade no geral, o mundo está em crise.


Então isso é o que move o fotógrafo. É isso que traz para o fotógrafo os questionamentos para que ele use a sua câmera para documentar tudo isso.


Henry Milleo

Essa era uma questão que eu ia te perguntar mais pra frente, mas já que nós abrimos essa porteira, vamos entrar nela já.


Você vê diferença, tendo cobrido, tendo trabalhado numa área que você sabe que está acontecendo um bolsão de violência muito grande assim - não digo oficialmente, não está tendo uma guerra, um conflito declarado como no Oriente Médio, ou como a guerrilha das FARCs, que é algo que está ali e você sabe que aquele local tem aquilo - e a violência numa cidade tipo São Paulo, por exemplo, que geralmente ela fica mais escondida em pontos específicos ou limitada a momentos específicos espalhados por toda a cidade?


Você acha que existe uma diferença nos dois tipos de violência?


Joel Silva

Sim, total. Primeiro porque todo conflito tem a sua classificação oficialmente. Uma guerra civil é diferente de uma guerra. Um conflito civil, não se fala guerra, se fala conflito civil, é quando a população se rebela contra o governo e vai tirar o governo. E uma guerra é entre dois países.


E o conflito urbano é esse conflito que a gente vive quotidianamente, nos morros do Rio de Janeiro, nas periferia de São Paulo…


Tem uma diferença no sentido de cobertura, de visão também. Por exemplo, se você for para a região da Faixa de Gaza hoje, lá é onde estão acontecendo as coisas. Então, assim a sua cobertura é focada ali. Eu sei onde estão os tanques, onde estão os tiros e eu me posiciono e documento tudo aquilo.


Posso morrer, posso levar um tiro mas eu estou ali, no meio da coisa.


Na periferia, na guerra urbana o conflito é pontual, é sazonal, ele não tem hora para acontecer, não tem momento. Então identificar isso, trabalhar isso e documentar isso só no pós morte. Você vai lá, tem um cara morto no chão, a polícia liga, você vai lá e documenta esse cara morto no chão. E em cima disso você faz o seu trabalho.


Por exemplo, no Rio - eu dei uma entrevista com uma revista francesa recentemente que ela repercutiu muito porque eu falei que eu tenho mais medo do Rio de Janeiro do que cobrir Gaza ou a Síria, porque lá no Rio de Janeiro… eu vou tentar exemplificar o que é o conflito urbano:


Você está lá no Rio de Janeiro, como eu já estive na ocupação do Morro do Alemão e no Complexo da Maré, enfim, eu fui para o Rio algumas vezes para cobrir as ocupações nas comunidades.


Henry Milleo

Isso era na época da criação das UPPs?


Joel Silva

Não, bem depois. O Morro do Alemão foi em 2010, se não me engano.


Henry Milleo

Eu estive lá também, cobrindo para o jornal nessa mesma época. Foi 2010 ou 2011.


Joel Silva

A UPP já veio antes, não lembro.


Henry Milleo

Eu acho que eles tinham feito uma parte das UPPs, eles estavam fazendo escalonado. Eu não peguei nenhum morro dos que foram mais punk na cobertura.


Joel Silva

O Exército ocupou o Morro do Alemão - eu não lembro qual foi o motivo - mas enfim, houve um conflito ali. E aí você está subindo o morro com a polícia e o traficante - o policial ou o traficante - eles não estão preocupados com você. E o traficante, a intenção dele é acertar você, não o policial. Porque se ele acertar o policial, ele vai ter um problema muito grave, porque a polícia vai pra cima dele com força. Agora, se ele acertar um civil, a polícia é obrigada a parar o confronto para atender o civil e socorrer o civil. Então assim, o tiro pode vir de qualquer lado.


Se você está numa cobertura na Líbia, você sabe que aqui é o front, que a estrada está ali, que lá na frente está o exército. Então você mais ou menos consegue se posicionar de um jeito… enfim, você tem uma logística de posicionamento mais fácil de compreensão do conflito.


No Morro do Alemão é muita viela, muita casa, muita casa em cima da outra, muito... E o traficante pode estar em qualquer buraco daqueles apontando um fuzil pra você. E aí você pode ser baleado, como já aconteceu várias vezes. Um fotógrafo da Reuters foi baleado na ocupação do Morro do Alemão, o Paulo Whitaker, que é um grande amigo meu. Então, assim, esse tipo de conflito, ele é muito mais perigoso para quem trabalha no sentido da cobertura como profissional de imprensa, porque a bala pode vir de qualquer ângulo, de qualquer lugar. Você não tem uma projeção de onde está o inimigo ou onde está a pessoa que vai contra atacar aquela posição de artilharia. E aí a chance de você tomar um tiro é muito maior.


Henry Milleo

Essa era uma outra questão também, que, como você falou do inimigo, que você não consegue identificar de onde vem aquilo. Mas na prévia, por exemplo, quando você foi cobrir as FARCs, você passou um tempo com as FARCs, não é?


Joel Silva

Sim.


Henry Milleo

Por que não escolher acompanhar o exército colombiano? Como você escolhe o lado que você vai cobrir?


Joel Silva

Eu estive com o exército colombiano e estive com as FARCs.


Henry Milleo

Você cobriu… Você acompanhou os dois por um período cada um?


Joel Silva

Sim, sim. No documentário tem imagens do exército, dos paramilitares e das FARCs. A ideia do jornalismo é chegar o mais próximo de todos os lados.


Henry Milleo

Ok.


Joel Silva

Muitas vezes é impossível. Por exemplo, a gente estava na Líbia, eu estava no leste da Líbia, e as coisas estavam acontecendo também no oeste, então lá a gente tinha um repórter lá no lado oeste, cobrindo as fronteiras de lá. E a gente na fronteira de cá. E nem sempre as informações chegam.


No caso da Colômbia ou, por exemplo, na Síria. Se você descer na Síria hoje, você desce no aeroporto de Damasco tranquilamente, e você pode se apresentar: eu sou jornalista, quero trabalhar aqui. O exército vai falar para você: ok, ótimo, a gente vai te levar para um hotel e você só sai desse hotel escoltado por um policial, por um soldado. Por quê? “Porque nós queremos garantir a sua segurança”. E isso aí te limita.


Henry Milleo

Certo.


Joel Silva

Você só sai escoltado e eles te levam para onde você quer.


Na guerrilha não foi diferente. Só que na guerrilha a intenção… Eu negociei com a guerrilha antes de ir para lá por um bom tempo e tudo mais. Tem uma negociação ali e tudo. Porque é um lugar de difícil de acesso e é uma região de difícil acesso, de autorização.


E essa autorização veio através de uma pessoa que conhece as FARC, que conhece a gente e tudo mais.


Enfim, ali a ideia era justamente mostrar o cotidiano de um acampamento militar guerrilheiro. Mas na Colômbia eu não fiquei só nas FARC, a gente entrevistou o lado do exército, fomos para o exército. É que essa parte não está no documentário porque a ideia era falar das FARC.


Mas toda vez que você vai para um país em conflito, a ideia é que você tem que ouvir todos os lados. Mas quando você vai para uma cobertura, infelizmente tem que escolher um lado.


Na Líbia, por exemplo, a gente ficou do lado dos rebeldes porque se a gente vai para o outro lado os caras limitam você a trabalhar ali, não deixam você ir para o front. E os rebeldes queriam que a gente mostrasse tudo, então eles deram liberdade para a gente.


É sempre um conceito, Henry, muito legal isso. Porque você precisa escolher o lado que vai te dar mais liberdade de trabalho. E aí você pensa: os rebeldes estão loucos para mostrar a revolução deles, então vou para o lado deles.


Eu atravessei a fronteira do Egito com a Líbia - os rebeldes tomaram a fronteira e aí era fácil - eu entrei sem visto. Eu entrei na Líbia. Eu não tenho visto de trabalho, eu não tenho visto no meu passaporte porque quando eu entrei a fronteira estava tomada e quando eu voltei ainda estava tomada, então entrei clandestinamente. Como entra-se na Síria também entra, às vezes clandestinamente. Não tem visto, não tem nada.


Henry Milleo

Como que era um dia de cobertura lá na Síria, por exemplo? Esse conflito na Síria?


Joel Silva

Na Síria era muito complicado, porque o que estava acontecendo muito no norte da Síria, leste do Iraque - ali na fronteira do Iraque com a Síria e Turquia. Para as pessoas entenderem como é a dinâmica do nosso trabalho: quando você vai para uma região de conflito, uma das primeiras coisas que você procura é contratar uma pessoa que a gente dá o nome de fixer. Quem é o fixer? O fixer é um um cara fixo. É um segurança, guia local que fala o idioma local.


Henry Milleo

Um nativo, né?


Joel Silva

Um nativo, que fala inglês, mas que também atua como guia e também muitas vezes como segurança.


O que acontece na Síria é que o Estado Islâmico ocupou o norte da Síria - aquela região do norte da Síria, fronteira com Turquia e Iraque - que é uma região dominada pelo Estado Islâmico, assim como com a Líbia é dominada pelo Estado Islâmico, ali em Benghazi, onde eu estive - e esses guias, esses fixers, estavam vendendo os jornalistas para o Estado Islâmico.


Então, assim, entrar na Síria é muito complicado. Hoje eu não sei mais, mas era muito complicado, porque você pode contratar um fixer e assim que você atravessar a fronteira - você atravessa clandestinamente, como eu falei - e ele pode te levar para uma estrada e você é cercado e levado pelo Estado Islâmico, como aconteceu com vários jornalistas.


Alguns morreram e outros a família teve que vender a casa nos Estados Unidos por 300, 400 mil dólares para mandar o dinheiro para os caras lá para libertarem os jornalistas.


Então, assim, é uma cobertura de altíssimo risco. Tanto que as agências tiraram o pessoal de lá da Síria e a cobertura ficou limitada a poucos fotógrafos que ficaram lá e tal. E eu nem sei como está a Síria hoje.


Ainda tem alguns bolsões de conflito de rebeldes contra o governo, mas aí vira uma farofa, vira uma bagunça, porque tem Estado Islâmico, tem rebelde, tem o Exército, tem… Aí entra paramilitar, entra mercenários, enfim… e aí você identificar tudo isso é muito complicado.


Em Gaza, por exemplo, é a mesma coisa. Você não entra em Gaza agora, só por túnel clandestino.


Henry Milleo

Mas como que era um dia lá? Descreva um dia da tua cobertura numa área dessas. Como que era a dinâmica de um dia numa área de conflito?


Joel Silva

Sim. Normalmente você acorda muito cedo, porque você dorme muito pouco. A primeira regra é que você dorme muito pouco.


Quando você faz treinamentos para a cobertura de zona de conflito, nos exércitos, uma das coisas que eles primeiro fazem com você é fazer você dormir uma a duas horas por noite, porque a bomba cai ao seu lado o tempo inteiro. Você escuta o bombardeio a noite inteira.


Então você acorda cedo, 05h30, 06h00. Quando tem alguma coisa para você comer… se você está em um hotel - porque normalmente os hotéis estão tomados pelos rebeldes e eles cobram para você estar ali, mas não te dão refeição.


Então você tem que buscar refeição na comunidade local, ou com o seu fixer, com alguém que você contratou ali, e ele providencia comida para você.


E a comida é um pacote de bolacha, uma garrafa de água, essas coisas. Você às vezes passa dois, três dias com bolacha e água, basicamente.


Então você acorda e aí você se reúne com o fixer, normalmente ele vai te encontrar esse horário, perto das seis, sete horas da manhã. Você já marcou com ele, já acertou com ele, normalmente o valor do fixer é de 150 dólares por dia, em média. O motorista também, são 100 dólares o motorista por dia - você contrata um motorista local.


E aí ele te fala: “Olha, hoje os combates estão acontecendo em Brega - Brega é uma cidade no leste da Líbia. Vamos para lá”. E aí de manhã, no período da manhã, você vai para o front de guerra que tem um pouco lá no meu documentário.


Durante o dia - foram 15 dias assim - durante a manhã, o começo do dia, a gente vai para o front e aí você vai lá para ver o que está acontecendo, fotografar, documentar, entrevistar e tal.


E é tiro, ou às vezes está tranquilo, não tem nada… É guerra, né? Então, às vezes o front está nervoso. Aí é avião jogando bomba ou não. Às vezes o dia está tranquilo. Aí o que você faz? Você sai do front de guerra quando está tranquilo, não está acontecendo nada. Você fica lá até um tempo, meio dia, uma hora da tarde, e depois desse horário é primordial que você visite os hospitais, porque se tem alguma informação precisa que pode chegar, vai chegar pelos rebeldes que foram baleados, que estão machucados e aí conseguem falar. Qual o número de mortos naquele dia…


E aí você visita os hospitais para fazer uma apuração mais profunda e checar as informações que você tirou lá do front de guerra para saber se bate com as informações que os próprios rebeldes estão dando, enfim.


Porque a informação é um bem precioso numa guerra, você nunca tem ela. Assim, você precisa realmente checar tudo o que você ouve. É muito desencontro, é muito do que chamam de propaganda de guerra.


Eles não podem falar que estão perdendo a guerra. “Tivemos 50 mortos”. E aí você vai lá no hospital, tem 100 mortos, esticados no chão. Mas como assim ele falou 50 e eu estou vendo 100? Então o repórter muitas vezes tem que apurar com o olho dele.


Então, à tarde a gente vai para os hospitais, enfim, para os lugares onde estão recebendo os feridos.


E aí no final da tarde você retorna para onde você estava, tenta uma conexão - porque uma coisa que é muito comum, é que as pessoas não sabem como é que você manda o seu material. Normalmente jornalista de combate, de conflito, ele leva um aparelho chamado satelital. É um aparelho de conexão via satélite. Hoje tem o Star Link aí que é muito fácil, você coloca em cima da caminhonete. Mas no meu caso era um aparelho que você acha o satélite - conecta com o seu satélite - e aí você consegue fazer ligação de telefone e também fazer transmissão via satélite.


Agora o problema desses aparelhos é que todo governo, ou todo país, tem os detectores de sinais de satélite. Ele identifica que dali tá saindo um ponto de satélite. E aí o que ele faz? Manda bombas ali, entendeu?


Então a gente também tem que fazer o seguinte: a gente conecta em lugares diferentes e fora do lugar onde você está dormindo, porque a chance de você ser bombardeado à noite é grande. Então tem isso. É tudo uma preocupação.


Então o nosso dia começa às seis da manhã e vai até às onze horas, meia noite. Você tem que enviar o material daquele dia para o jornal. Às vezes tem fuso horário, tem a diferença de fuso horário. Você tem que se preocupar em apurar, fotografar e aí descansar o máximo que você puder descansar, porque a rotina é puxada.


Henry Milleo

Até porque foto boa é a foto que chega no jornal, na agência.


Joel Silva

Exato. Exatamente. Às vezes você tem uma excelente…


Por exemplo, no dia que eu fotografei uma… eu fotografei uma bomba, que explodiu bem ao meu lado - essa foto está no documentário, ela é bem falada no mundo inteiro, foi publicada nos jornais do mundo inteiro, no New York Times, enfim…


E eu fiz essa foto, era perto do meio dia, no horário líbio, e aí a gente estava cinco horas à frente do Brasil. Então eram seis horas da manhã aqui no Brasil. E aí houve uma… não uma discussão, mas eu falei: eu vou recuar da estrada, sair um pouco dali e retornar um pouco, alguns quilômetros para trás, para eu ter tranquilidade para eu poder ligar o satelital em cima do carro e transmitir uma foto. E o repórter: “não, mas por que você vai mandar essa foto agora? São seis horas da manhã no Brasil”.


Eu falei: não, eu já vou deixar essa foto no sistema do jornal, porque a hora que o primeiro editor chegar lá ele vai ver essa foto e vai publicar, já vai avisar. Então é isso, foto boa é a que está publicada no jornal e a gente tem que se preocupar até com isso.


Henry Milleo

Exato.

Aliás, essa história da bomba - eu tinha visto isso - inclusive, se você quiser me ceder a foto ou sei lá, se ela está lá no teu Instagram, eu vou publicar ela no Instagram do do podcast e quem quiser pode conferir lá esse material.


Joel Silva

Pode, sim. Fique a vontade. Você consegue puxar lá no Instagram, certo?


Henry Milleo

Consigo. Eu faço um print lá e reposto.


Joel Silva

O meu Instagram tem várias fotos das várias coberturas, tanto da Líbia como do Oriente Médio, como das FARC. E aí você pode puxar e fazer uma galeria.


Henry Milleo

Beleza, valeu mesmo!


Eu ia te perguntar sobre essa foto da bomba que explodiu muito próximo de você. Teve algum momento em algum conflito que você pensou: agora eu fui longe demais? Ou algo do tipo: agora já era. Sabe?


Uma sensação - como você diz que tem sempre medo e eu acho que na verdade não é errado ter medo, porque o medo é um instinto de autopreservação, ele na verdade nos ajuda, você só tem que saber como controlar ele para você poder fazer o teu trabalho, não é?


Mas teve algum momento que você pensou: Agora ferrou!?



Joel Silva

Retornando ao medo, eu acho primordial isso que você disse. É verdade.


Você não pode deixar o medo te fazer ficar em desespero. O desespero te mata, entendeu? Se eu entrar em desespero em qualquer situação, ele vai me matar. Mas ter medo é fácil.


Eu tive medo várias vezes, em várias situações. Eu tomei um tiro de raspão na cabeça, no Cairo. Teve essa bomba que explodiu ao meu lado. Eu fiquei 18 horas numa van fugindo da Líbia para o Egito fugindo de ser emboscado pelos rebeldes que queriam matar jornalistas.


E aí é um momento muito longo de tensão, porque você fica 18 horas achando que os caras estão atrás da van, de madrugada, no meio do deserto, sabe?


Henry Milleo

Sim.


Joel Silva

Eu falo também no documentário: A partir do momento que você atravessa essa fronteira, você não tem mais domínio, você não tem mais controle sobre a sua vida.


Então, assim, cabe a gente calcular os riscos, fazer o trabalho e assim que achar que deve, sair do local o mais rápido possível.


Algumas vezes eu tive essa sensação de que eu não voltaria, como colegas meus que não voltaram. Sempre é um risco. E aí você tem que ter essa consciência, né? A partir do momento que você atravessa a fronteira, você não tem mais o controle da sua vida. Isso é fato.


Então, se você tiver a chance de poder fugir, como foi o meu caso, eu fui alertado pelo meu fixer: “Joel, foge do hotel agora. Vai para o Cairo que o pessoal vai te pegar para matar vocês”. E mataram. Mataram o cinegrafista da Al-Jazira e mataram o fotógrafo da Getty Image, o Chris Hondros. Inclusive, virou um documentário também, a vida dele.


Henry Milleo

Isso, na Netflix não é?


Joel Silva

Não, a Netflix tirou, rapaz.


Henry Milleo

Que pena.


Joel Silva

É uma pena. Eu não sei o porquê. Enfim, mas eu não sei onde está agora. Tem que dar um Google e descobrir.


Então, assim, aí quando eu cheguei no Cairo, aí você vai avaliando. Nossa, realmente agora foi punk. Mas daqui a pouco você entra numa outra roubada: Nossa, agora foi punk.


Então você tem que ter essa consciência. O fotógrafo que resolve seguir nessa profissão… e aí eu digo, Henry, que é uma forma até de aliviar - que é a preocupação dos familiares, que a gente sempre abandona a família para estar nessa situação… abandona, não, né? A gente deixa a família para o nosso trabalho - mas eu já vi colegas morrerem em situações tranquilas de uma manifestação de rua.


Tomou uma pedrada na cabeça, caiu e morreu. Então é necessário manter sempre a atenção e rezar para não acontecer o pior. 


Henry Milleo

E confiar no instinto, não é?.


Você falou do Hondros. Você estava lá na mesma época que o Hondros foi morto, então?


Joel Silva

Morreu três dias depois que eu fugi da Líbia.


Henry Milleo

Você teve contato com ele lá, bateu um papo, alguma coisa assim?


Joel Silva

Sim. No dia que eu fugi da Líbia, eu resgatei um fotógrafo sul africano, o Kim. Ele estava no quarto e eu corri lá para o quarto - a gente estava em Benghazi, a capital rebelde - e eu corri para o quarto e avisei ele: Kim, os caras estão vindo buscar gente. Vambora, Vamos dividir uma van e tal.


Quando a gente desceu - descemos juntando todas as coisas; equipamento, colete - botamos tudo no corpo e descemos a escadaria do hotel em Benghazi e eu encontrei com o Chris chegando, entrando para a cobertura, chegando para cobertura. E aí eu falei: cara, nós estamos fugindo porque a situação está perigosa. Você não vai? E ele falou: “não, acabei de chegar”.


Ele estava pela Getty. E aí eu lembro que eu só… eu falei: esse cara é louco, ou tô indo embora.


E aí esse foi um momento de desespero meu, porque eu tenho filhos. E quando eu fui alertado de que a gente ia ser morto bateu esse desespero. Aí eu não sabia se eu estava muito desesperado ou se ele estava muito calmo.


Henry Milleo

Um dos dois estava errado.


Joel Silva

É… Mas aí eu pensei: bom, cara, paguei 800 dólares para uma van me tirar do país, de noite, no escuro do deserto. E aí cercaram o carro da Al Jazira - o carro estava atrás da gente - com tiros e a gente viu isso pelo retrovisor. E isto dá um desespero. E aí eu pensei: não, eu tô certo, cara. O cara ficou lá no hotel. Será que tá bem? E aí, três dias depois que eu estava no Cairo, eu recebo a notícia de que ele tinha sido morto, infelizmente.


A gente perde amigos, a gente perde colegas, a gente perde conhecidos. Mesmo que sejam só conhecidos com quem você cruzou e depois você soube da morte, isso é um fator de muito peso psicológico para gente como profissional.


Você perdeu um colega, mesmo que você não tenha tido nenhum contato mais forte com ele, você perdeu um colega. E poderia ser você. E isso afeta o psicológico, afeta e muito forte a gente.


Henry Milleo

Porque você projeta, não é?. É como você disse: poderia ter sido você.


Você não conhece, está só cruzando, às vezes só viu de relance e tal, mas você sabe que de repente poderia ter sido ao contrário, né?



Joel Silva

Você é fotógrafo, né, Henry? Então, assim: imagine que você está em uma manifestação aí em qualquer lugar do Brasil - em Curitiba, em Ponta Grossa - uma manifestação qualquer. E você identifica que naquela região ali têm traficantes armados. Se você encontrar um colega seu, a primeira coisa a fazer é alertar o cara: tome cuidado ali, tome cuidado, está vindo pedra pra cá, sabe?


Porque isso é uma coisa corporativa, né, cara? O primeiro reflexo nosso é proteger a nossa categoria. Quer dizer, não só a nossa categoria, mas todo mundo: Cuidado! Mas se você vê um colega indo na direção de um lugar que está muito perigoso e que ele corre o risco ali, o seu primeiro instinto é alertar: tome cuidado aí que tá vindo pedra aí, ou está vindo tiro.


E aí quando acontece isso choca muita gente, né? Mesmo que você teve esse contato de avisar o cara, é muito tenso.


A cobertura de conflito - de qualquer conflito, de qualquer coisa, qualquer manifestação de rua - a sua concentração tem que estar muito antenada com seus instintos muito abertos, muito sensíveis, para você perceber o que está acontecendo, pra não acontecer uma tragédia.


Henry Milleo

E você chegou a cobrir também aquelas manifestações grandes de 2013?


Joel Silva

Sim, sim. Em São Paulo.


Henry Milleo

No Brasil inteiro teve.


Joel Silva

É, não. Eu falei São Paulo porque eu estava lá. Mas em São Paulo tentaram invadir a prefeitura, invadiram lojas. Eu tenho fotos de gente invadindo as Casas Bahia e saqueando… Virou uma catarse popular.


Foi por conta do Passe Livre, né? 2013. 


Henry Milleo

Começou. Acho que o primeiro motivo como a gente diz, a primeira desculpa, foi o aumento…


Joel Silva

O estopim, né?


Henry Milleo

Isso, foi o aumento. Depois acabou virando por tudo e foi constante. Acho que a Folha fez até um documentário sobre isso, chamado Junho.


Joel Silva

Fez. Uma foto jornalista nossa tomou um tiro de borracha no olho.


Henry Milleo

Isso.


Joel Silva

E teve um fotógrafo que perdeu um olho também.


É sempre tenso, né? Eu estava comentando hoje, uma coisa bacana que me perguntaram -  eu dei uma entrevista hoje e aí me perguntaram por que que eu fiz o documentário. Qual foi o motivo de fazer o documentário?


Eu acho que a primeira coisa - e eu acho legal falar isso para vocês aí pra vocês entenderem - é que assim: quando você está assistindo a televisão ou está lendo um jornal, ou está vendo um site de notícias de uma região em conflito, eu acho que as pessoas comuns, as pessoas que não são da nossa profissão, eu não sei se elas têm a percepção de que para aquela imagem estar ali na televisão, aquela foto estar no jornal ou no site de notícias, que tem uma pessoa com família ali para documentar. Uma pessoa que tem família e que está colocando a vida em risco para que aquela informação chegue até ela e da maneira mais fiel possível.


Então muita gente está colocando: ah, o soldado… não, o soldado é obrigação dele estar na guerra. O socorrista, é obrigação dele estar na guerra.


Agora, se não tivesse o instinto dos jornalistas de estarem nessas regiões para poder colocar essas informações para o mundo… as pessoas eu acho que elas não têm muita noção disso.


Então eu acho que o documentário é um pouco pra isso. Mostrar o lado humano do jornalista, do fotógrafo, do repórter, o lado humano dele. Ele é uma pessoa que está ali para tentar fazer a informação chegar até o público. Isso muitas vezes não fica explícito.


Você vê o noticiário da televisão, mas você não sabe que tem um cinegrafista ali filmando aquela bomba na frente dele.


Henry Milleo

Vamos falar sobre o documentário. Foi você que produziu ele todo sozinho?


Joel Silva

Sim. Tinha uma produtora alemã, mas eu optei por fazer tudo sozinho, porque é o seguinte… Na verdade são duas roteiristas alemãs que eram da produtora e que fizeram o roteiro para eu seguir: “ah, faz isso, isso e isso…”


Aí teve uma equipe de produção para fazer as imagens de abertura, que é o Rafael e a Juliana para fazer essa espécie de produção dessas imagens, que é mais de abertura. E as imagens do final fui eu que produzi também.


Porque uma coisa que é legal, que eu gostaria de deixar… por que fui eu produzir e eu que fiz tudo?


Quando você coloca um documentário, quando você vai produzir um documentário e você negocia esse documentário com a produtora, a produtora vai querer empregar a linha de pensamento dela. Ela vai querer colocar ali o bedelho, vai falar: “não vamos fazer assim e tal”. Eu esqueci o termo… narrativa, desculpa. Uma linha de narrativa.


E você constrói, mas ela fala: “não vamos fazer aqui, assim e assim”. E eu tinha muita preocupação em fazer um documentário muito didático, muito mostrando a imagem e falando sobre ela. E eu imaginei que se eu estivesse dividindo isso com alguma produtora, eu teria que abrir mão de muitas coisas nesse sentido. E aí eu optei por trazer tudo para mim.


Então o documentário foi todo produzido por mim. Eu tive os roteiros feitos por essas duas Alemãs, que estão lá nos créditos do documentário, e eu não tenho habilidade em edição de vídeo e tal, mas enfim, joguei tudo para minha timeline do Premiere e fui aos poucos… O documentário levou três meses para ser editado. Porque era isso. Eu editava uma parte, revia, depois editava outra parte. Fui fazendo em blocos e depois juntei tudo e salvei tudo.


Assim eu consegui empregar uma narrativa minha, que não tivesse interferência de ninguém. E aí acabei eu mesmo fazendo tudo ‘na unha’. Como diz o nosso amigo que me entrevistou: eu fiz tudo na unha.


Henry Milleo

Sim, porque faz parte. Se você quer manter uma linha de raciocínio, uma narrativa, um roteiro da forma como você imagina que deveria ser, é muito mais fácil você mesmo fazer.


Joel Silva

É. Só que aí é assim. Não fica… Eu achei que ficou bom o documentário, mas não fica com uma cara profissional.


Henry Milleo

Mas também não fica engessado, não é?


Joel Silva

Exatamente


Henry Milleo

Que é o mesmo motivo pelo qual eu faço o podcast.


Joel Silva

É. E você vê que é uma conversa aberta, tranquila e a coisa vai fluindo, né?


Eu não sei se você assistiu o documentário, mas a ideia era essa. Deixar a coisa mais solta.


Henry Milleo

Eu não assisti ainda porque quando eu estava levantando os temas para fazer o podcast - e eu já tinha você na mira para conversar contigo - eu acabei fazendo a pesquisa e eu descobri o documentário só recentemente.


Joel Silva

Não, o documentário eu lancei essa semana. Assiste com a patroa que é jornalista. Me ajuda na orientação. Vê o que ela acha e o que você acha. E aí eu não quero elogios, eu quero: “olha, Joel, devia ter ficado maior, ou poderia ficar menor. Ficou boa a edição. O áudio está ruim”. Como você é um cara expert.


Henry Milleo

Uma das coisas que eu mais tenho medo é quando pedem a minha opinião. Porque sempre que me perguntam a opinião de alguma coisa, eu digo assim: olha você quer uma opinião diplomática, ou você quer que eu dei minha opinião de verdade?


Porque eu acho que as pessoas merecem opiniões sinceras - e até tem gente que acha que eu sou meio chato porque às vezes eu falo na lata. Mas é que eu sou acostumado a trabalhar muito com gringo, e o gringo vem e te fala de verdade: “olha, o trabalho está ruim”. A gente que é latino pensa: o cara não gosta de mim. Não é verdade. Ele está falando só do trabalho. Não está falando de você. São coisas diferentes. Mas a gente sempre tem o sangue um pouco mais quente.


Mas, sim. Eu dou a minha opinião correta quando eu assistir.


Joel Silva

Como eu trabalhei lá fora, eu também tenho um pouco… aprendi um pouco… A gente precisa aprender a lidar com a crítica. É óbvio que aquela crítica bem construída, né: “olha, Joel, o áudio do seu documentário está uma porcaria”. E falando exatamente assim. Por que? Porque é: deixa eu ver aqui o que é que o Henry está falando. Vou lá e ponho o fone direito, troco o fone… Nossa, realmente…


Muitas vezes eu fui alertado - não nesse documentário - “olha, tá esquisito isso aqui, Joel. Vê o que é que você está fazendo aí”. E eu vou lá e:  nossa, é verdade, escrevi um erro de português aqui.


Enfim, a gente precisa aprender a trabalhar com a crítica, né?. E a gente é latino, a gente não sabe.


Henry Milleo

Mas a gente aprende na marra.


Tem uma questão que eu tinha anotado aqui é que eu não perguntei. A gente já saiu da história do conflito, mas eu quero voltar um pouco.


Joel Silva

Não. Vâmo aí.


Henry Milleo

Como é que você decide o que cobrir? Porque assim… Digamos, numa região de conflito que seria essa, como você diz, de uma guerra já declarada, uma questão de uma revolta popular, enfim, esse tipo de coisa. Isso é uma pauta.


Mas a gente sabe que dentro de um conflito existe o conflito em si, mas tem muita coisa que vem no lastro disso, ou a guerra deixa muita coisa no lastro disso e muita coisa que acontece na periferia daquilo, como civis, como questão de atendimento das pessoas que deveriam ser protegidas e que não são, enfim. Como você decide o que cobrir?


Porque você pode ir cobrir uma guerra para cobrir só o front, como você pode cobrir uma guerra para cobrir só - como é que eu vou dizer assim - essa que não é a linha de frente, que seria a linha de fundo, o que fica no rastro daquilo, como você pode cobrir os civis… como você decide o que cobrir? E dessas decisões, qual é a mais difícil?


Porque uma vez eu vi um documentário do Don McCullin em que ele fala que sempre estava na linha de frente da guerra e que ele começou a sentir uma dificuldade emocional na cobertura quando ele parou de cobrir o front e começou a cobrir os civis, o que a guerra deixou para trás.  E foi daí que ele decidiu, inclusive, nunca mais cobrir uma guerra.


Então, como você decide isso?


Joel Silva

Sim, são decisões sensíveis. Por exemplo, entre uma foto de um rebelde chegando ferido em um hospital e a foto de uma bomba explodindo, qual teria mais efeito profissional? Qual foto te daria mais status profissional? A do front de guerra, né?


Henry Milleo

Mas qual seria mais importante?


Joel Silva

O mais importante é você mostrar o efeito que a guerra está causando na população local. Isso é o mais importante. Só que isso não dá muito ibope, porque esteticamente a foto de uma bomba explodindo é mais bonita do que - esteticamente, tá?


Henry Milleo

Sim, sim.


Joel Silva

Você vai ver no documentário e vai dizer: “não, esteticamente a foto do corpo no chão era linda”. Mas aí é onde eu fui puxado para entender porque o corpo estava caído no chão.


Então, quando você está numa guerra, a gente tenta fazer as duas coisas. Como você falou: “qual era a sua rotina na Líbia?” A rotina na Líbia era: vai para o front no período da manhã, mas pode ser que de manhã não acontecesse nada, como já aconteceu.


Eu estava com fotos da Reuters, o Goran Tomasevic, que é um excelente fotógrafo da Reuters, e quando eu fiz a rota da bomba, ele não fez. Porque ele estava em outro lugar. E a foto da bomba correu mundo. E o Goran é um excelente fotógrafo.


Então tinham dias que pela manhã eu estava no front e ele estava no hospital e aí a tarde ele ia para o front e eu ia para o hospital.


Não dá para escolher, mas a gente tenta fazer uma cobertura bem dinâmica nesse sentido.


Vamos buscar ver como está o front: ah, está calmo. Aí corremos para o hospital, ou corremos para a região onde foi bombardeado, como em Gaza.


Porque você fica sabendo. “Estão bombardeando o norte de Gaza”. Aí você pega o carro e corre para lá. Como aconteceu… Um carro passou por nós pela estrada e a 200 metros uma bomba caiu no carro com a família inteira.


Então, assim. O que é mais importante em uma cobertura de modo geral? É você mostrar a ação do front de guerra ou mostrar o efeito que esse factual está causando lá com bombardeios, civis mortos, famílias mortas?


O massacre no Cairo, por exemplo. O massacre no Cairo foram 800 mortos numa mesquita só. No massacre no Cairo eu acho que vou resumir bem a sua pergunta.


Eu tinha duas opções de foto no massacre do Cairo, que eu mandei para a Folha: uma foto mais aberta, mostrando os corpos dos parentes no chão e uma mulher, um homem e uma criança chorando, ou uma foto mais fechadinha da mulher chorando, caindo uma lágrima, bem mais fechada.


Qual a foto tem mais impacto para eu mostrar para o mundo a tragédia que foi aquilo? A da mulher chorando. Tanto que foi a que foi publicada na Folha. Uma foto linda.


E eu falo isso no documentário. O grito de dor dela furava os meus ouvidos, cara. E eu tentava transmitir isso não é fotografia.


Então assim, muitas vezes o impacto da guerra na população é o mais importante de uma cobertura de guerra.


Henry Milleo

Bem, para finalizar, o que esse tempo cobrindo esse tipo de situação deixa no fotógrafo? Porque a gente sabe que tem questões de trauma, tem - é claro, depende de cada um e cada um lida com isso de uma forma diferente. Mas o que que isso deixou para você?


Joel Silva

Eu tenho duas frases que eu falo no documentário - eu não sei se posso dar spoiler,, mas eu vou dar. Eu acho que todos os fotógrafos que já estiveram em uma zona de conflito de alguma maneira ficaram com alguma sequela emocional. Mesmo que seja um conflito só que ele cobriu, ele volta… eu tenho o meu stress pós traumático.


Às vezes eu acordo de madrugada achando que estou na Líbia, no deserto, que a casa está explodindo. Eu acho que minha esposa está morta ao meu lado. Eu acordo - quando eu estou muito estressado, muito nervoso, muito cansado - eu acordo de madrugada nesse stress.


Então tem duas frases que tem lá no meu documentário, no final do documentário, que eu digo: aquele que decide descer no mundo em conflito, tenha a certeza de que o brilho da sua alma ficará lá. Aquele que decide viver o caos, tenha a certeza que o caos viverá nele. Basicamente é isso.


Então eu acho que é o sacrifício - não sei se é sacrifício que eu poderia falar - mas é o que você carrega quando você volta, ou quando você deixa de cobrir essas situações.


Eu pelo menos tenho isso. Eu não ouço música mais, eu perdi o gosto de ouvir música. Você perde algumas coisas que para as pessoas são normais. Festas, baladas, enfim… 


Nada disso não me dá muito… Porque para quem viveu o caos do mundo, como eu disse no documentário, é muito difícil voltar para a sociedade e olhar algumas coisas na sociedade sem você associar com o mundo lá em conflito.


São dois mundos que você visita. Então acho que é isto.


Henry Milleo

E você se preocupa em saber como é que as coisas estão hoje nos lugares que você já esteve?


Joel Silva

Sim, eu acompanho. Na Líbia, por exemplo. O leste da Líbia é uma região dominada pelo Estado Islâmico, então não daria para voltar lá.


E o Oriente Médio está sempre com essa… principalmente ali em Gaza, na Síria, no Iraque… e agora voltou. O Irã…


Henry Milleo

O Talibã.


Joel Silva

Talibã… Enfim, eu acho que é uma região difícil de entender. E não é nem o Talibã. Agora é no Mar Vermelho, ali nos navios ali. Pessoal de um país ali, bem ao sul, enfim, os rebeldes estão lançando mísseis nos navios que atravessam o canal ali.


Henry Milleo

Teve uma retaliação dos navios americanos e ingleses, inclusive.


Joel Silva

É. Os Estados Unidos já mandaram bomba lá em cima do país.


Eu estou tentando lembrar o nome do país aqui, que eu esqueci. Mas enfim, a gente não deixe de acompanhar o noticiário de todas as formas. O noticiário local… porque nós somos jornalistas, nós somos fotógrafos, né?


E eu ainda continuo fotografando, continuo fazendo fotojornalismo. Mas não mais em região de conflito. É óbvio que se tiver uma manifestação de caminhoneiros na estrada aqui perto de casa, eu vou pegar meu equipamento e vou para lá, porque é a minha função trabalhar e levar notícia. Enfim, está no nosso sangue. No meu, no seu… Eu sei que você é fotojornalista também, então eu tenho certeza de que se uma tragédia acontecer perto de você, seu instinto vai ser pegar sua câmera e correr ao contrário de todo mundo. Povo correndo pra cá e você correndo para lá, né? É o seu instinto.


Henry Milleo

Essa é uma coisa que eu sempre digo. Uma vez eu fui fazer uma fala em uma faculdade em Curitiba e uma das perguntas do pessoal era se o pessoal que estava ali com câmera, os amadores, não atrapalhavam. E isso era logo depois que tinha acontecido uma manifestação lá em Curitiba - isso foi em 2015, em 29 de abril de 2015 - dos professores que o governo retalhou com força. Tiveram mais de 300 feridos. Eu mesmo fui atingido. Uma bomba de efeito moral explodiu em mim e eu tenho a cicatriz até hoje.


E eu falei assim: quando você está ali e está no começo daquela confusão, que não começou o conflito propriamente, que está naquela coisa de empurra-empurra e você olha para o lado, você vê um monte de gente com câmera, com celular e você vê os teus colegas. Você vê o André Rodrigues, o Leandro Taques, o Brunno Covello, o Alvari Rosa, que são os caras que estavam ali junto contigo. Mas quando a primeira bomba explode, você olha para o lado e não tem mais ninguém, só os caras que tem que estar ali.


Então, infelizmente - ou felizmente, eu não sei - a gente corre pro lado errado mesmo. Você corre para o lado de onde veio a bomba, de onde veio o tiro.


Joel Silva

É o instinto mesmo. Porque nós somos formados nessa escola do fotojornalismo. A gente acompanha muitos colegas, nossas referências e tal…


E tem um trecho no documentário - que é um trecho que eu coloco depois que eu tomo o tiro na cabeça - que o diretor do jornal dá um depoimento ali e que eu falo: o fotojornalista não se preocupa se ele vai pisar uma bomba, se ele vai tomar um tiro, ele se preocupa em chegar o mais próximo da notícia.


E eu acho que é isso. O nosso instinto é chegar o mais próximo da notícia, porque você está ali para isso, para retratar o que está acontecendo. Então o instinto é chegar o mais próximo da notícia para trazer a notícia.


Henry Milleo

E qual dica você daria para alguém que pensa em começar a cobrir, alguém que está começando no fotojornalismo e que pensa em cobrir regiões de conflito?


Joel Silva

Vá para uma manifestação onde tem bombas de gás lacrimogêneo.


Henry Milleo

Se acostume com o cheiro.


Joel Silva

Se acostume com gás lacrimogêneo.


A primeira coisa que eu sempre falo é: comece aos poucos, fazendo manifestações pequenas. Se proteja, coloque um capacete de skatista na cabeça, que é o óbvio para você não tomar uma pedrada. Coloque um protetor, um colete ou alguma coisa que sirva de proteção não para bala, mas para pedra. Põe alguma coisa para proteger o peito e a cabeça.


E vá, ficando sempre na retaguarda, observando os colegas. É a primeira manifestação, cobrir um protesto, ver como é que funciona a dinâmica de um protesto, como é que são os manifestantes. Não se infiltrar ali no meio, porque ali é onde pode acontecer o estopim. Sempre andar nas margens da coisa e acompanhando a uma certa distância com uma teleobjetiva. Porque - assim, não tem uma regra, não tem uma receita básica: “faça exatamente assim ou assim que vai dar certo”. Vai muito pelo seu instinto de proteção, de posicionamento.


Mantenha a sua retaguarda sempre coberta. Começou a estourar bombas? Corra para um muro, uma banca de jornal, deixe suas costas protegidas por alguma coisa para você ficar de frente para o que está acontecendo, porque aí você consegue tomar uma decisão de sair de onde você está e correr para um lugar mais seguro.


Então a dica é: faça pequenas coisas para poder depois fazer as grandes, ok?


Henry Milleo

Passos de formiga.


Joel Silva

É.


Henry Milleo

Bem, é isso então. Muito obrigado, Joel, pela tua disposição em conversar com a gente aqui.


Avisando novamente: vou deixar o link do documentário do Joel aqui na descrição do episódio e também na transcrição do episódio lá no site do Arquivo Raw.


E vou deixar também o link das redes sociais do Joel para vocês poderem acompanhar o trabalho dele.


E é isso, fiquem bem, até a próxima. Ciao!


Joel Silva

Henry, muito obrigado pelo convite. Estou sempre à disposição.


Henry Milleo

Perfeito, meu caro, valeu!


Joel Silva

Um abraço.


<SOBE MÚSICA

DESCE MÚSICA>


Esse episódio usou trilha do podcast.co.




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